“Conheceu Lampião? Não? Então não conhece nada.” A fala de Arlindo dos Santos, 85, morador da Rasa da Catarina, na Bahia, toca o centro do labirinto que envolve a vida do rei do cangaço. Arlindo foi um dos muitos coiteiros que ajudou a esconder e a proteger Virgulino Ferreira da Silva.
A saga do maior bandido da história brasileira é um dos episódios sociais mais instigantes da América do Sul. Nas últimas décadas surgiram no Brasil várias publicações de estudiosos do cangaço que ora lhe dão uma aparência poética de justiceiro, de vindicatório do povo, ora destacam os feitos do facínora. O episódio cangaço, que teve um tempo histórico de mais de cem anos e mobilizou todos os Estados do nordeste, nunca teve o alcance da Guerra de Canudos. Esta, embora mais restrita e menos duradoura, se preserva na memória histórica nacional pela força do testemunho de Euclides da Cunha e do imaginário popular. Quanto ao cangaço, mesmo conhecidas as vozes da maioria de seus personagens, falta a voz do homem que teve o poder de decidir. Os outros ficaram como aprendizes de feiticeiro. Assim, a despeito de pesquisas de historiadores sinceros, a falta de um narrador, mesmo sem a envergadura de um Euclides da Cunha, lança na ambivalência a grandeza épica daquele homem.
A menção do nome Lampião e seu bando imediatamente evoca as imagens de “momentos Kodak” realizadas nos anos 30 pelo mascate libanês Benjamin Abrahão. Aqui, porém as fotos não valem mil palavras. Na Guerra de Canudos, 40 anos antes, tivemos o fotógrafo-expedicionário Flávio de Barros que acompanhou as tropas republicanas e documentou os fatos no calor da hora.
Para além das fotos posadas nos cliques de Benjamin, e com base em livros de autores famosos, temos a visão do cangaço por cineastas como Lima Barreto de “O Cangaceiro”, Glauber Rocha de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Lírio Ferreira e Paulo Caldas de “Baile Perfumado” e Rosemberg Cariry de “Corisco e Dadá”, este em estilo realista, despojado de fantasia.
Tangenciando essas imagens parti para tentar compreender o cangaço nos sertões arcaicos do nordeste que serviram de cenário para manifestações de religiosidade, missões católicas e cristianismo primitivo, como as do Conselheiro, da Beata e do Padre Cícero Romão; do coronelismo e das raízes desse banditismo sem similaridade no mundo. O que me interessava era o momento histórico daquela violência, seja dos cangaceiros, seja das volantes, a força policial. O que ouvi foi um vai-e-vem contínuo entre imaginário e real. Parafraseando o escritor Josué de Castro, a verdade é que a história dos homens do nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos.
Os sertanejos interagem com seu mundo, e suas vidas são marcadas pelo encontro com a diversidade. O sertão, com sua paisagem de tirar o fôlego, inóspita, desolada, abatida por secas cataclísmicas, não é palco para amadores. Culturas alicerçadas no domínio do medo parecem prisioneiras de um futuro ao qual não se dá a menor importância: aconteça o que acontecer, é o destino. Vivem se desculpando e vivem agradecendo.
A aura de misticismo que recobre os “lampiões”, com casos reais ou fantasiosos, mas todos absolutamente sinceros e fincados no solo fértil da imaginação, faz o queixo cair. Crimes, estupros, castrações, mutilações, tiro ao alvo em caminhantes, degolas, seqüestros, surras e rostos de mulheres marcado a ferro, à moda do gado, eram praxe de muitos cangaceiros e desestruturam os mitos de bondade ou de “Robin Hood” que acompanham muitas histórias.
O certo também é que os principais cangaceiros, os de sanha brava, como Lampião, Corisco e Labareda, nasceram mansos e se tornaram cruéis. Lampião acerta as contas do pai injustamente acusado de roubo. Labareda vinga a irmã mais nova ameaçada de rapto por um sargento. Na época, procurou a justiça relatando esse fato. Foi aconselhado pelo juiz de direito da cidade a fazer o mesmo com a irmã do policial. Corisco, um dos mais violentos cangaceiros, era militar, apoiou uma revolta de tropa, foi preso, fugiu. Dispersos, ficaram entregues a um mundo caótico. Ali traçaram as linhas de batalha e se prepararam para o ciclo de violência que iria se desbobinar.
“Filho, é soldado ou cangaceiro?”. Pedro de Tecila, 94, morador de Olho D`Água do Casado, Alagoas, então com 20 anos, olhando e tremendo pela fresta da janela, responde para a mãe. “É Lampião!” Pedro reviveu na entrevista aqueles instantes – com voz falha e angústia no peito –, seu primeiro contato com Lampião. Ao descrever esse encontro, falta-lhe o ar, o terror continua presente mesmo depois de mais de setenta anos. “Chapéus voltados para trás, todos a cavalo. Eram treze homens e três mulheres, cabelos longos até os ombros, ouro para todo lado e fuzis enfeitados. Me faltou a fala ao tentar responder o cumprimento do Capitão. Eu gaguejava. Ele queria saber de quem era aquela fazenda e se tinha cavalos”.
Pedro sabia que não havia segunda chance na vida “se os cabras não fossem com a tua cara”. Eles despertavam ao mesmo tempo repulsa e fascínio. Muitos jovens se alistaram nas hordas do cangaceirismo, arrebatados pelas histórias, pelas roupas azul-escuro (da mesma cor da túnica de Antonio Conselheiro), pelos lenços bordados daqueles homens que se enfeitavam em demasia. Sempre ao pé do cadafalso, quer pelas leis do cangaço, quer pela ordem das volantes, os sertanejos eram almas cativas da dor.
“Vá buscar e venha nesse instante”, respondeu Lampião quando Pedro disse que tinha um cavalo. “Saí correndo e tropeçando, quando me lembrei da burra. E agora?” Para aqueles homens que assumiam o papel do Estado com suas próprias regras de justiça, a deslealdade e a mentira eram punidas com pena de morte, e Pedro sabia disso. “Burra manhosa que só o diabo. Demorei.” Ele percebeu. “Deixa a burra”, lancetou Lampião “e nos acompanhe para ensinar o caminho. Ficamos amigos”. Mais tarde Pedro se tornaria um coiteiro de confiança do grupo. “O Capitão conversava muito, recordo também que ele nunca sorria. Às vezes levantava acampamento perto daqui por até quinze dias. Certa vez, ao passar na fazenda Aroeira, matou 40 vacas e ateou fogo na cerca, no curral e na sede. Ficou só o pó. Era represália ao dono que não tinha mandado o dinheiro que ele pediu. Numa outra ele recebeu um bilhete do fazendeiro que mandava só um dinheirinho porque não tinha conseguido mais. Lampião reúne o bando e fala grosso. Esse homem tem respeito meu por ter mandado a carta.”
Pedro de Tecila faz a narrativa de seus contatos com o Capitão seguindo uma cronologia baseada nos anos de estiagem. Conheceu Lampião logo depois da grande seca (1932) e, sorrindo, conta a história do único dia em que o rei do cangaço teve medo. “Naquele tempo eu tinha um garrote bravio que não havia jeito. Para amansá-lo, amarrei uma lata das grandes de querosene cheia de mandacarus bem espinhudos no rabo do bicho para ele aprender. Quando apertei o nó, o garrote fugiu berrando e arrastando a lata em direção ao esconderijo de Lampião. No dia seguinte fui levar leite para o bando e encontrei Lampião com uma cara danada. Que houve Capitão? Pedro, ontem à noite o barulho e a zoada da besta-fera foram horríveis. Pensamos que íamos morrer todos.
Conhecendo a fera que Lampião era, não contei nada”, se diverte Pedro e completa: “Ele foi bom pra mim”.
Pode um mesmo nome suscitar emoções tão diversas? Ao lado de uma ficha criminal extensa, o bando de Lampião dá sinais e testemunho de dimensão poética. São histórias emocionantes.
Antonia, 107, primeira mulher do feroz cangaceiro Gato, abandonou as hordas depois que seu marido se amasiou com Inacinha. Reclamou com Lampião, mas a decisão ficou com Gato que, tempos depois, iria demonstrar todo o seu amor pela amante ao morrer em combate tentando resgatá-la quando presa e ferida na cidade de Piranhas, Alagoas. Lampião tampouco intercedeu em favor de Lídia, mulher de Zé Baiano, quando ela o traiu com outro cangaceiro: cortou a cabeça do delator, mas entregou a bela Lídia à justiça do marido, que a matou ali mesmo, a golpes de porrete. Em outra ocasião o Capitão mandou matar o cangaceiro Sabiá, que havia estuprado uma parente de um coiteiro. Sabino, lugar-tenente de Lampião, muito ferido em combate com a volante e após oito dias de sofrimento, pediu ao chefe que o matasse, mas ele não aceitou. A tarefa acabou sendo realizada pelo cangaceiro Mergulhão que lhe deu o tiro de misericórdia.
Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, “Lampião era pai e marido amoroso, e se deve a ele a introdução no cangaço do oficio religioso coletivo, das mulheres em caráter permanente, da logística dos equipamentos e suprimentos bélicos, da guerra psicológica”, e de muitas outras artimanhas necessárias para uma sobrevivência na caatinga.Grande dançarino, organizava com seus coiteiros ao menos dois bailes semanais. Ainda de acordo com Pernambucano de Mello, “o traje do cangaceiro tinha apuro ornamental. Cheio de cores vivas e harmoniosas nos lenços bordados, nos bornais e frisos das cartucheiras e nas perneiras”. Também usavam muito perfume e muitos anéis.O chapéu em estilo napoleônico era coroado de moedas de ouro e prata.
“Vi o chapéu clarear”. Esta foi a descrição de Arlindo dos Santos ao ver Lampião pela primeira vez. Os testemunhos são unânimes quando se fala no modo de vestir, nos perfumes e nos bailes dos cangaceiros. Conta-se que quando o bando chegava, a pergunta era: “tem macaco na Várzea (em referência aos policiais)? Não! Então era uma festa só. A mulherada vinha toda. Quase furavam o chão de tanto dançar. Sanfoneiro tocando, uma beleza, música miudinha e valsa”. O xaxado era uma dança muito difundida no bando de Lampião, e eles a executavam batendo com a coronha dos rifles no chão marcando o ritmo da música. Arlindo prossegue: “Eles todos perfumados. Os frascos de perfume já eram uma beleza, eles davam para as mulheres… só os vazios”. Quando perguntado o que achava de Lampião, não hesitou. “Era um bandido bom.”
Depois que as volantes começaram a entregar armas para os sertanejos se defenderem, o bando deixou de se esconder ali. Vera Ferreira, jornalista e neta de Lampião, perguntou a Arlindo: “Se pudesse atiraria no chefe dos cangaceiros?”. De pronto finalizou o coiteiro: “Sim, a polícia pedia”. Tal ambivalência faz a história desse período tão interessante.
Vera Ferreira se dedica hoje a coletar dados e material para o futuro Memorial do Cangaço. Ela não quer tomar partido se o avô era bom, ou ruim. O importante é revelar a verdade sobre aquelas décadas, as razões que levaram essa gente a ser cangaceiro. “Muitas atrocidades cometidas em nome do meu avô são infundáveis. Provas não faltam para esclarecer que, nas datas desses crimes, o bando de Lampião não estava lá”, atesta Vera e completa: “Gostaríamos que o Memorial fosse em Canindé de São Francisco, cidade sergipana, perto da Grota do Angico onde, em 28 de julho de 1938, morreram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros. O projeto arquitetônico já temos. Terá auditório, biblioteca, sala de exposições com grande acervo de roupas, fotografias, enfim tudo sobre o cangaço. Estamos procurando patrocinadores”.
Já se escreveu e se pesquisou tanto sobre o rei do cangaço que parece improvável a descoberta de aspectos inusitados. Há, contudo, um tópico pouco esclarecedor. É sobre a morte de Lampião. “Boi no Pasto” – o telegrama do sargento Aniceto, de Piranhas, para o comandante Bezerra, após delação do coiteiro Antonio da Piçarra de que Lampião estava na redondeza precipitou o fim do cangaço. Mesmo traído por que Lampião, estrategista nato, teria escolhido a Grota do Angico, um buraco, para acampar por quinze dias? Como mais de cinqüenta cangaceiros foram pegos de surpresa por um grupo de aproximadamente 40 policiais que caminharam e rastejaram morro acima por quase duas horas? Como os cães e os vigias de Lampião não notaram nada? Para Elias Alencar, 87, vizinho do coiteiro Pedro de Tecila, e que participou da volante naquele dia, era a hora H do dia D de Lampião. “Atracamos à margem do Rio São Francisco, vindo de Entremontes às 4horas. Às 6 começamos a subir a encosta e nos dividimos em três grupos. Um se perdeu e não participou da batalha. De repente, no meio de uma neblina enorme, começou o tiroteio. A ordem de combate não tinha sido autorizada, mas o cangaceiro Amoroso foi fazer xixi e deu de cara com um volante. Entre fumaça e névoa não se enxergava nada. Dei tiro a esmo durante uns quinze minutos. Pensei que estava ferido, pois sangrava muito na cabeça, mas eram estilhaços das pedras que voavam para todo o lado e me acertaram. Quando parou o tiroteio, Lampião e Maria Bonita já estavam mortos. Só vi as cabeças decepadas em Piranhas quando foram colocadas na escadaria da Prefeitura local.” O resto do bando debandou. Alguns foram presos, a maioria se entregou. O cangaço terminou naquele dia às 8horas. Anos depois os cangaceiros voltaram à vida livre e nenhum retornou à marginalidade.
Ainda nas palavras do coiteiro Arlindo, vislumbrei a melhor pegada de Lampião. “Capitão, o que devo dizer se a volante aparecer lhe procurando? – Diga que passei por aqui, amando e querendo bem, pegue meu rastro”.
Reportagem publicada na revista Brasileiros