Encanto e terror nas selvagens savanas da África

Uma viagem pelas savanas africanas conserva ainda hoje o fascínio irresistível de uma aventura. É uma descoberta contínua, não somente pelos animais ferozes, como também por sua vegetação típica. Tudo perpetuado por um sol vangoghiano. A cada passo, a estranheza da aventura corresponde a um processo de iniciação: o encontro com o inesperado, os desafios, o improviso e a descoberta de que o medo não surge em doses homeopáticas, mas é despertado de forma abrupta, nos arrancam de nosso cotidiano e nos arrastam para muito longe de nós mesmos.

Nas duas últimas décadas, surgiu uma nova experiência desta África sem paredes, indomável, inexplorada, propiciando uma intimidade aconchegante, natural e pessoal: os acampamentos nas savanas alagadas do delta do Okavango. A África destes viajantes não é a mesma dos turistas de uma África domesticada e sob a redoma de resorts e safáris com animais de hora marcada.

 

O rio que decidiu salvar um deserto

O rio Okavango nasce no planalto central de Angola com o nome de Cubango. Ao encontrar-se com a paisagem “deserdada” do Kalahari na Botswana, dá uma colher de chá para este deserto: desiste de sua saída para o mar e desemboca nas areias, transformando-se em canais, riachos, lagos, pântanos, olhos d’água, terras aguacentas. Com aproximadamente 16000km2, é o delta interior mais extenso do mundo. Suas águas pouco profundas criam um oásis que é prodígio da natureza por sua exuberante vegetação verde-esmeralda. Nestas zonas alagadiças, os lírios d’água, as flores de lótus, as ninfas e a luz do delta são fontes inesgotáveis de inspiração para fotógrafos e viajantes.

 

Os Tented Camp

Esses acampamentos nasceram nos países da África do Sul e do Leste (Namíbia, Botswana, Zimbábue, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e Quênia) com um estilo próprio e encantador. Consistem de, no máximo, quatro ou seis barracas (walk-in tented) permanentemente armadas sobre uma base de cimento, com banheiro privativo e paliçada de fazer inveja à imaginação do melhor decorador tropical. Tendo como teto o céu aberto, a luz nesses banheiros modifica-se de acordo com as horas do dia. Além disso, chuva e sol, pássaros e babuínos fazem parte desta cambiante decoração.

Nenhuma barraca invade a privacidade da outra. Todas são grandes, têm duas camas, armário, mesa e varandas voltadas para uma vista privilegiada. Tudo muito limpo. As refeições são servidas em um atraente quiosque, onde os hóspedes ainda podem desfrutar de uma pequena biblioteca com obras sobre a fauna e flora locais. É onde descobrimos que este “habitat” abençoado pelo Okavango, de água e bichos, dá a impressão de que a Arca de Noé ancorou por aqui. Podem ser vistos todos os grandes animais carnívoros, grupos de elefantes, de hipopótamos, de javalis, de crocodilos, de búfalos – com aquela cara de quem acabou de roubar a sua carteira e permanece na moita –, cervos com galhadas do mais puro design e aproximadamente 350 espécies de pássaros, entre os quais o jaçanã, a águia pescadora, o pássaro tecelão de peito amarelo-ouro e os hornbills. Este pássaro se caracteriza pela grande envergadura, podendo atingir até 80 cm de altura – alguns têm uma saliência óssea de grandes proporções na cabeça – e pelo seu cacarejar surdo e rouco, cujo volume aumenta gradativamente partir do seu inicio. No delta só não se vê rinocerontes.

Café ou chá, biscoitos ou frutas estão sempre à nossa disposição durante todo o dia.

Os quiosques também são ponto de encontro para as saídas dos safáris. O primeiro deles tem início ao amanhecer e retorno para o “brunch”; o outro sai no final do dia e nos reserva uma surpresa: um brinde num lugar especial de onde se pode apreciar “à hora do sol-posto”, como diziam os americanos vestidos de roupa cáqui e com ares de Jim das Selvas.

Esses acampamentos oferecem três tipos de safáris: o “game drives”, com veículos 4×4 para, no máximo seis pessoas; o “mokoro safaris”, em que se utiliza uma canoa típica feita de tronco de ébano e os “walking safaris”, excursões a pé. Caminhar é uma introdução às sutis contemplações que as viagens de carro não possibilitam.

Diversos acampamentos se espalham pelo Delta do Okavango, cada um com seu charme particular, com fauna e flora características. Alguns se localizam em ilhas, outros nas savanas, outros ainda nas florestas fechadas dos pântanos ou ao lado de rios ou mesmo dentro deles, em barracas-barcos. O acesso a todos só é possível por meio de aviões pequenos, do tipo Cessna 206 ou Cessna Caravan. A viagem ideal para Okavango exige uma permanência de dois ou três dias em, ao menos, três desses acampamentos, para que se possa “curtir” suas particularidades.

 

Em Duba Plains

Pela Air Botswana, partimos de Johannesburg na África do Sul em direção da capital de Botswana –Gabarone –, primeira escala para o destino final, Maun, porta de entrada do Delta.

Na Botswana, as mulheres se vestem com as coloridas kangas. Este nome deriva de uma palavra do idioma kiswahili, que quer dizer galinha-de-angola. Segundo a história oral, os homens assim batizaram esta roupa, porque havia uma semelhança entre o seu colorido pipocado e o vozerio de suas mulheres, que quando juntas pareciam estar “cacarejando”, como as galinhas-de-angola. Mas, onde eu estava? Tagarelando?

De Maun, um avião Cessna de seis lugares nos conduziu ao primeiro acampamento em Duba Plains. Um pinga-pinga, pois desceu antes em outros acampamentos.

Do avião se nota que o rio Okavango remalha as terras com sutis desenhos em filigranas. A natureza parece ter a textura de um tecido rústico de algodão. Na verdade, um axadrezado de quadradinhos em que se alternam ocre-areia e verde-cré, para lembrar agora outro pintor holandês – Mondrian.

Assim que o avião desceu numa pista quase oculta pelas árvores, um grande Land Rover se materializou, parecendo saído daqueles antigos filmes de contrabandistas. Pulverizava poeira por entre o “bush”, uma vegetação quase rasteira, típica dos climas tropicais.

Do jipe saltou Jez Lynce, um jovem inglês e guia desses acampamentos há mais de cinco anos. Dele, os recém-chegados ouvem as primeiras explicações sobre o local e sobre as atividades.

Duba Plains talvez seja o mais remoto Tented Camp do Delta. Situa-se numa ilha e está cercado por uma ampla planície alagada. É ideal para passeios em “mokoro” e suas barracas são sombreadas por ébanos, figueiras e acácias. Seu quiosque principal compõe-se de um bar e uma varanda com um deck ao lado de árvores fluviais. Esta área primitiva é também o habitat de leões, leopardos, elefantes, búfalos, cervos e pássaros. Duba é um acampamento pequeno e aconchegante, com acomodação para apenas dez pessoas e oferece todos os tipos de safáris.

Houve tempo apenas para um rápido café acompanhado por “cookies” recém-saídos do forno, e já estávamos a postos no jipe para o safári da tarde, sob sol forte. Jez anunciou: “Agora vamos procurar leões e, à noite, vamos ver se encontramos leopardos”. Durante as quatro horas seguintes aprendemos a reconhecer as pegadas dos leões, dos elefantes; por suas fezes, pode-se definir o tempo aproximado de sua passagem pelo local. Este safári reserva uma surpresa deliciosamente romântica: um brinde com champanhe ao pôr-do-sol.

À noite, cuja temperatura lembrava mais o frio islandês, o programa foi “procurar leopardos” que podiam ser vistos com suas caças nas árvores. Há também leões, que circulavam nas proximidades do acampamento. Mas não é preciso temê-los, embora ali seja território dos animais. Basta seguir as regras.

“Nós construímos este campo em seu quintal”, o guia costumava afirmar.

 

Selvafricamente

O jantar, servido com esmero, foi saboroso e regado por bons vinhos sul-africanos. Seguiu-se a ele um bate-papo ao pé do fogo, onde o assunto predominante dizia respeito à ferocidade, agilidade e estratégia de caça dos animais carnívoros. Uma senhora americana relatou como havia escapado do ataque de um urso no Yellowstone Park. Era guia e recebeu uma patada que praticamente destruiu parte de seu rosto, obrigando-a a uma plástica. “Só escapei porque me fingi de morta”. Outro guia contou como um jovem japonês perdeu a vida depois de ser atacado por leões no Etosha Park, na Namíbia, havia menos de um ano, quando, imprudentemente se escondeu no parque para acampar.

Mais assustadoras do que isso só as histórias do Abominável Homem das Neves ouvidas numa taverna no Himalaia. Enfim, quando o fogo começou a morrer, e o vento a brincar com as cinzas, resolvemos voltar para nossa barraca. Embora ela estivesse distante apenas setenta metros, naquela escuridão e solidão eles representaram quase dois quilômetros. Caminhávamos tensos e temerosos, empunhando a lanterna em todas as direções e delegamos a nossa responsabilidade à sorte.

Na barraca, resolvemos fechar apenas a tela de proteção contra insetos. Viver integralmente a primeira noite na África, escutar os possíveis sons do silêncio, ser acordado pelo grito de alma penada do Yellow billed hornbill era tudo o que queríamos. Mas aquela noite nos reservava uma bela surpresa.

Fomos subitamente despertados por um rugido, suficiente para despertar um defunto que, acredito, somente um galês da cidade de Llanfairpowllgwyngyllgogerychwydrobwlllantysiliogogogoch na Gales do Norte pode reproduzir.

Nesses momentos é que um homem bem compreende a origem tenebrosa do medo. Numa fração de segundo e num salto de quase meio metro, já estávamos acordados, bem despertos e fechando rapidamente o que era possível fechar em nossa barraca. Sem dúvida, aquele rugido era de um leão! Mas um dia na África não nos tinha tornado “experts” para saber a que distância ele estava. Um quilômetro? Dez metros? Assustadíssimos, mas tentando manter a calma começamos a prestar uma atenção odiosa aos barulhos. Agora eram passos ao lado da barraca, que logo resultaram no som de um pulo dentro do nosso banheiro. Seguiu-se depois o ruído de garras raspando a lona, mas quase abafado pelo som de 200 integrantes da bateria da Mangueira em que haviam se transformado as batidas de nossos corações.

Trocávamos palavras percebidas somente pelo movimento labial, tanto era o batuque em nosso interior. Enorme!

Enorme mesmo foi o susto ao ver um rabo passando por dentro da barraca. Embora sem saber absolutamente o que fazer, vencemos a paralisia e, do alto de nossa cama, munidos do que restava de nossa coragem, de um canivete suíço e de uma lanterna tentávamos saber que bicho era.

Era um felino, sem dúvida! Mas não um leão. Maior que um gatão, menor que um leopardo. Ele olhou para nós, rangeu os dentes e, …no “impasse” da mágica para nosso terror, acomodou-se na outra cama.

Não conseguimos descobrir que animal era e temíamos imaginar qual sua ferocidade, porque, embora menor que um leopardo, poderia criar o caos naquela tenda. Passamos a noite nos revezando para vigiar o “monstro”. Ao amanhecer, muito tempo antes de sermos acordados para o safári, saímos os três juntos: ele para a direita, nós para a esquerda.

- Levantaram cedo! comentou nosso guia ao se deparar conosco.

- Na verdade, ainda nem dormimos.

Depois de contarmos nosso episódio noturno e descrevermos nosso “hóspede”, Jez conseguiu desvendar o mistério.

- Foi um civet, uma espécie de grande gato selvagem africano. Ele se assustou com o rugido do leão e procurou abrigo.

- E se fosse um leão, o que faríamos?

- Enjoy Yourself, Jez desejou em seu característico humor britânico.

Nossa viagem havia apenas começado. No segundo acampamento, o Kwara Camp, nossa barraca — a famosa número 4 — ficava exatamente no caminho dos elefantes para uma pequena lagoa. Acordávamos sempre sobressaltados quando algum deles resolvia se coçar nas cordas da armação.

Diante de tais acontecimentos, nossa fama começou a nos preceder.

- Ah! Vocês são os brasileiros que tiveram a companhia de um civet na barraca? Aquele havia sido um acontecimento inusitado mesmos nos acampamentos onde ocorria todo o tipo de estórias.

Em Xiguera Camp veio a nossa vingança. Como ninguém nos despertou para o safári matinal pensamos que haviam nos esquecido. Mas logo veio a resposta. A barraca do guia estava sendo bem guardada por treze leões adormecidos.

E tivemos de esperar durante três horas, quando, enfim, os leões foram embora e o guia “libertado”.

 

Reportagem publicada no jornal Valor Econômico