Havana, a Sensualíssima

Se Havana se parece com alguma cidade, esta cidade é Veneza. Embora visualmente opostas, são iguais em essência. Ambas estão fora do mundo e nos levam com elas. Sua atmosfera singular resulta das construções tantas vezes repintadas, cuja pátina se fez pela maresia e pelo tempo. Ambas conservam a mesma magia que toca desejos, mexe com nossa emoção, só que em ritmos diferentes.

Impossível descrever Havana pela imagem e pela música sem plagiar o cineasta Win Wenders no filme Buena Vista Social Club, de 1998. A primeira cena mostra Ry Cooder, músico americano, entrando em Habana Vieja ao volante um side-car desconjuntado. Seu objetivo era reunir os músicos cubanos que até 1959 se apresentavam na sede do Clube Recreativo Buena Vista. Desse reencontro nasceu o filme que lê Havana como quem lê uma partitura.

Cooder vai percorrendo ruas esburacadas no pino do meio-dia. Vêem-se em ruínas os palacetes coloniais de condes e marquesas, cujas paredes nacaradas, construídas em pedra porosa e coral retirados do mar tanto fascinaram Garcia Lorca, Isadora Duncan e Igor Stravinsky. Vitrais coloridos atenuam a reverberação da impiedosa luz do Caribe, pátios internos com fontes e ruas estreitas sombreiam calçadas; foram artimanhas utilizadas pelos construtores de Havana para driblar o calor.

O som é o das ruas: buzinas dos carros estropiados, caindo aos pedaços, a algazarra das crianças a caminho da escola em uniformes encarnados e homens que jogam dominó nas mesas ao ar livre, num ritual diário e ruidoso. O mais barulhento era, e ainda é, o ônibus chamado “camelo”, porque tem a forma do próprio – “onde moça bonita recebe massagem erótica” –, ironiza a desinibida passageira Rosamar, enfaixada em um body de lycra pink, deliciosamente brega. A câmera cinematográfica também surpreende um bizarro ciclista com o rosto coberto de piercings. Famoso, hoje ele se exibe nas escadarias da Catedral com 250 adornos a mais.

Cuba mergulhada em música. Mas por causa da revolução, pela falta de grana e de meios técnicos para gravações, ficou fora da distribuição no mercado internacional. O que a manteve congelada também a conservou pura e singular. No filme, a frase do guitarrista Compay Segundo, 95 anos, emociona: “se tivéssemos seguido o desejo material, teríamos desaparecido”.

Fernando Ortiz, intelectual cubano, afirma que para compreender seu povo é preciso passar pela música e dá a receita: negro + tabaco + tambor, branco +açúcar + violão, ou seja, uma corrente espanhola e camponesa que se casa com ritmos afros e deuses da Santeria, equivalente do nosso Candomblé. É possível acrescentar também o espírito alegre do deus Dionísio – aqui, sem vinho mas com rum – e sua natureza inclinada à tragédia, à comédia, provocador da inspiração musical. Tal mistura está plasmada no Callejón de Hammel. Todas as fachadas desse quarteirão foram pintadas como um extravagante mural, com símbolos afros, hispânicos, indígenas e orientais, resultando em um rincón ao mesmo tempo lúdico e macabro. Aos sábados e domingos ali se reúnem músicos e dançarinas cujas roupas de cores vivas se mimetizam ao local. Todo o conjunto parece entrar em transe e despacha nossa inibição.

 

Rico vacilón

Os sete quilômetros do Malecón, calçadão a beira-mar, são a tribuna dos habaneros – os moradores de Havana. De um lado, o mar azul-lázuli, do outro, casarões de cores tão diversas quanto seus estilos. Este calçadão é o lugar ideal para preguiçar, far niente, ou como se diz por aqui, rico vacilón. Ponto de encontro de namorados, de pescadores, passantes e turistas é também o local dos madrugadores e dos os boêmios chumbados. Quando é o mar que fica de ressaca, invade a avenida ensopando quem está num táxi-coco cor de manga madura – uma lambreta adaptada para dois passageiros. O Malecón é o cenário perfeito para fotos de noivas envoltas em vestidos de tule, cauda de cachoeira e babados mil ao vento, e de jovens produzidíssimas comemorando seus quinze anos.

O centro histórico, Habana Vieja, declarado Patrimônio da Humanidade em 1982 pela UNESCO, retrata a riqueza da época colonial espanhola. Fortalezas, templos, monumentos, fontes, praças e igrejas, como a Catedral que o jornalista cubano Manoel Pereira definiu como música petrificada. Na calle Obispo está localizado o Hotel Ambos Mundos onde viveu o escritor Ernest Hemingway. Ele a percorria diariamente a caminho da Plazuela de Albear, em direção ao bar El Floridita, para saborear uma das especialidades da casa, o daiquiri, só que para ele era com double run. Os cubanos batizaram com o nome do escritor de “O velho e o mar” a elegante marina onde chegam veleiros de todas as partes do mundo. Outro escritor cultuado é Eça de Queirós, que freqüentava o Café Columnata Egipciana quando cônsul de Portugal em Cuba.

A Havana imortalizada nos filmes de Hollywood com sua gente rica e extravagante como no filme Week-End in Havana com Carmem Miranda e César Romero; a Havana com seus cassinos, intrigas e suspenses sob o comando da Máfia em Guys and Dolls, com Marlon Brando, e em Topaz, dirigido por Alfred Hitchcock, não existe mais. Baixa-se a cortina, corta-se a cena. Esta cidade é doida, é maravilhosa. Não se consegue absorvê-la. O roteiro por Habana Vieja se completa num inventário da riqueza e da complexidade desse país de matiz socialista. A começar por duas de suas maiores construções: o Capitolio, cópia fiel do original americano, e o Hotel Nacional, projetado pelo mesmo arquiteto do The Breakers em Palm Beach. Atrevidamente independentes os cubanos expressam sua esperança.”Chegou ao fim nossa contagem regressiva”, arrisca Juan Y., 34 anos engenheiro e taxista.

De fato, uma viagem pelo interior desse país nos mostra que estamos diante de uma nova realidade. Cidades como Varadero, Trinidad e Holguin se apresentam com seu sol em glória, as praias lotadas de turistas estrangeiros, com sua arquitetura colonial, resorts e hotéis cinco-estrelas, táxis Mercedes e lojas de grife.

Todo o patrimônio arquitetônico dessa ilha levou séculos para ir se acrioulando até se tornar cubano. Foi justamente a revolução que deteve a onda de demolições dos casarios, para em seu lugar erguerem-se arranha-céus sediando bancos e grandes multinacionais. Hoje as cidades estão em obras. Restauradas, voltarão a exibir seu original esplendor.

 

Mestre-Cuba

A reforma também chegou à cozinha, que precisa apenas de polimento, pois tem todos os ingredientes para saborar e sofisticar qualquer prato. O point máximo para gourmands e cinéfilos é o palacete onde foi rodado Fresa y Chocolate, de Gutiérrez Alea. O apartamento do personagem Diego, apaixonado pela cultura cubana, é hoje um restaurante. As iguarias são papa-fina, mas perdoe-nos a heresia, a comida é quase dispensável. Aqui o que nos alimenta é o cenário: a escadaria, o piso em mármore, a pátina cor de açafrão das paredes, as colunas, as esculturas. Nem mesmo os cômodos subdivididos e o painel revolucionário destoam. Dá até para ouvir o fundo musical de Vitier.

Talvez sejam a música e o cinema os instrumentos certos para decantar uma sociedade, só que em Cuba esta receita exige uma dose de rum.

Como todas as criações originais, o rum gera histórias e lendas. Acredita-se que seu nome derive de rheu, que no dialeto sevilhano quer dizer talos, com bouillón – caldo em francês – chegando-se a rumbillión e depois simplesmente rum. No princípio era uma bebida forte para gente rude, que ajudava a engabelar a saudade de casa. Foi definida pelos piratas como “o tônico sumo da terra”.
Em 1862 surge a lenda de Facundo Bacardi, recém-chegado da Catalunha para civilizar o rum. Ele traz novas técnicas de destilação que acrescenta buquês e uma dourada cor ambarina à bebida. Dá início à distribuição internacional e usa o morcego como emblema da casa. Com a revolução a destilaria é nacionalizada, e o rum cubano passa a se chamar Havana Club. Na capital do país, a fábrica de rum Bocoy produz o “Legendário” e o especial Isla del Tesoro, envelhecido 25 anos. As palavras de um personagem de “Ilhas da Corrente” de Hemingway definem o espírito dessa alquimia: “eu não fumo nem como doces, mas tudo o que se destila nesse país me dá prazer”.

Prazer de ver e de sentir é o que nos apresenta Orlando Blanco Blanco, o maitre de 36 anos do Floridita que em fevereiro de 2002 venceu o IV Concurso Internacional para Sommeliers e do qual participaram connaisseurs de todas partes do mundo; um dos juízes era brasileiro. O objetivo do concurso é o melhor casamento entre um charuto e uma bebida. Com elegância sóbria Blanco explica sua mistura campeã: um Robaina com um Porto de 20 anos, da Real Companhia Velha. O Robaina é um charuto menos encorpado, chamado “puro de nova geração”; o vinho tem nível alcoólico médio e conserva seus tons frutais.

Naturalmente requintado Blanco nos oferece uma aula para os sentidos: o ritual de acender um “puro”. Primeiro exibe a carta de charutos, sugerindo marcas e bitolas dependendo do tempo que se dispõe, pois um charuto pode ser degustado até por uma hora e meia. Retira do refinado mostruário o escolhido e corta sua extremidade num gesto delicado. Acende-o com uma vareta de cedro, o que permite queimá-lo devagar enquanto vai espiralando o charuto no ar, liberando o forte e puro aroma do tabaco. Tudo isso sem levá-lo à boca, já que o charuto é do cliente.

Ao sair do Floridita notamos que o aroma de fumo incensa Havana. Sua atmosfera, assim como a de Veneza, se avalia com o coração. Se a cidade italiana é conhecida como a Sereníssima, a Noiva do Adriático, Havana é a Sensualíssima, a Amante do Caribe.
Ecoando numa viela a voz de um cantor expressa este sentimento com perfeição: “a Cuba voy, porque non vienes tu también a volar, ….pero si non vás te mando una postal”.

 

Hipertexto: Vale de Viñales, o vale dos charutos de Cuba

Conta-se que os primeiros que aspiraram o fumo da planta do tabaco foram os Maias da península de Yucatan, no México. Com o colapso de sua civilização, as tribos se espalharam pelas Américas levando o costume de fumar essa erva considerada sagrada. Quando Colombo desembarcou na ilha de Cuba, foi atraído pelo ritual dos índios que enrolavam em forma de tubo as folhas da planta denominada cohiba. Também costumavam inalar por meio de dois canudos finos e longos, inseridos nas narinas, aos quais chamavam tabaco. A palavra maia para fumo, sikar, foi locucionada para sigarro pelos espanhóis, e assim começou a história do Il puro, o modo carinhoso com que são chamados todos os charutos cubanos.

No Vale do Viñales, a 150 quilômetros a oeste de Havana, as plantações de tabaco se estendem ao pé dos mogotes, pequenas montanhas de pedra calcária que, sob um sol escaldante criam um perfeito terroir para as folhas dos melhores charutos do mundo. Nas Casas de Fermentação as folhas verdes se pigmentam, enquanto transpiram, evoluindo desde tons ocres e ferruginosos e terras douradas e grenás até o castanho mais escuro. Ali, à meia-luz, essas folhas acetinadas doam seu aroma que atiça os genes mesmo daqueles que não fumam. Relembro o músico Compay Segundo. “Desde os cinco anos tenho um charuto nos lábios. Nesta idade eu os acendia para minha avó”.

As melhores folhas são enviadas para as fábricas, a maioria em Havana, onde trabalhadores, os chamados torcedores, as enrolam manualmente para transformá-las em charutos. Nestas instalações o progresso foi deixado para trás. O quê se vê hoje num destes salões é igual ao que se via no início de século 19, nenhuma tecnologia. Cada torcedor tem à sua disposição somente uma pequena bancada, uma lâmina e cola vegetal. Tudo totalmente a mano. Cuba produz cerca de 140 milhões de charutos por ano, acondicionados em caixas de cedro e exportadas para mais de 120 paises.

Talvez o mais famoso charuto seja o Cohiba, criado originalmente para Fidel Castro presentear seus hóspedes especiais. Ele já foi definido como “a reserva da reserva da reserva”. Para os aficionados, sem dúvida, ele é formidável, mas os connaisseurs revelam outras marcas como o II Upmann Connaisseur ou o Hoyo de Monterrey Epicure N. 2 que são top de linhas. Enfim, todos “Hecho em Cuba”.

 

Reportagem publicada na revista Metrópole