Pecílio troca comida por carinho

Ao finalizar sua carta ao rei de Portugal, datada de 8 de janeiro de 1606, sobre tudo que havia visto no interiorzão do Brasil, o bandeirante, boquiaberto, precisou confirmar …”e isso não é fábula”.

Ao deixar José Pecílio Costa, 28, na Serra de Itabaiana, Sergipe, como num final de histórias de magias é difícil acordar do encantamento. Pecílio, menino franzino, tinha problemas para se expressar, gaguejava e não se interessava pelos estudos, só por passarinhos. Seu maior sonho era ter um falcão. Certo dia ganhou um ovo dessa ave e a pulso conseguiu convencer o irmão deixar que a galinha deste chocasse. Após 21 dias todos os pintinhos eclodiram, menos o tal ovo. Pecílio implorou para que ficasse por mais alguns dias sob a galinha e após uma semana, nascia na palma de sua mão, Tito, um falcão carcará. Nascia ali também uma grande amizade, parceria e união de almas.

Tudo o que Pecílio aprendeu, foi com Tito: que ovos de falcões eclodem com 28 dias, o que aves de rapina comem, que gafanhoto é ótimo para problemas digestivos, que a gordura do sapo é eficaz contra infecções, que a respiração boca a bico é necessária em casos extremos, que se forem adestradas ainda jovens não mais se acasalam, pois seu parceiro passa a ser o treinador, e todos segredos da Falcoaria. Esta arte treina aves para: apresentações de vôo livre, defesa pessoal ou de um lugar, caçar, ou simplesmente para companhia. A maior diferença é que em todas as falcoarias do mundo, sendo as mais famosas as orientais, as aves são condicionadas pela recompensa com alimento, enquanto Percílio troca comida por carinho e consegue em quinze dias o que outros treinadores só realizam em seis meses.

Somente há seis anos, quando Ricardo Alexandre da Silva, 29, biólogo amador, atraído pelas histórias dessas aves, vai ao seu encontro, é que Percilio ficou sabendo que o carcará Tito (Polyborus plancus) era uma fêmea. Juntos decidiram criar o Parque dos Falcões, com o objetivo de transformar o conceito de treinar aves de rapina como, falcões, gaviões, corujas, além de seriemas, socós-boi e urubus. O Ibama de tanto levar aves machucadas e debilitadas para Pecílio e Alexandre reabilitar e devolver ao habitat natural, tornou-se um parceiro do Parque. Mas muito mais parceiros são necessários, pois o trabalho é intenso e a despesa com alimentação, entre rações e cem quilos de carne por semana, é enorme. Não há recursos para manter ajudantes, “à vezes tomamos café da manhã às seis horas da tarde“, confessa Percílio.

O Parque receberá nos próximos meses a visita de biólogos para aprenderem a reprodução em cativeiro do gavião pernilongo (Geramospiza caerulescens), conseguida com sucesso por Alexandre e Pecílio. Mais uma vez foi Tito que mostrou que os gravetos são selecionados pelo macho, para que a fêmea escolha um para construir seu ninho.

O tal bandeirante, apesar de informar corretamente ao rei, deve ter imaginado que era muito melhor se o monarca pudesse ver de perto esse fantástico Brasil. Saber do Parque dos Falcões é bom, mas conhecer pessoalmente Pecílio, Alexandre, os falcões, Tito, Chorão, Xaraque, Dara, Pimpão, Coragem, Azuma, que foi astro de documentário japonês, a seriema Lambreta, o urubu Romualdo, o socó-boi Nicinho, as corujas Curcur e Lucinha é outra história. Outra inacreditável fábula brasileira.

 

Matéria publicada no livro “Viva o Brasil”