Ponto de Partida: Brasil, século 17. A cabocla deu com os olhos nas golas e punhos brancos e bordados do sóbrio vestido da imigrante holandesa. Esperta, achou parecido com a rede dos pescadores. Encasquetou de recriar os pontos. Inventiva, foi logo acrescentando novos trançados, tramas, substituindo linhas e fitas, enfim adaptando para ficar bonito, do seu jeito e de seu mundo. Deste, tirou os nomes para batizar os pontos: pipoca, dente-de-jegue, aranha, cocada, olhinho de pombo, perna-esquecida, jasmim, vassourinha, etc. Desse país de sol em excesso, de céu tão azul e de mar tão verde, da exuberância de altares barrocos, foi recolhendo e brincando com as cores e tramas, tropicalizando os bordados europeus. Nascia assim, em pequenos povoados à beira-mar de Alagoas e Sergipe, o talento e a bossa que séculos depois se consagrariam nos Fashionweeks e seriam publicado na Newsweek: “o Brasil está na moda” e faz moda.
As rendas alagoanas e sergipanas brilharam nas passarelas dos desfiles do estilista Ronaldo Fraga, que usou bordados brasileiros em sua coleção Verão 2003/2004. Considerado por especialistas como histórico, o desfile de Amir Slama inovou com maiôs coloridos em renda filé, ultratropicais, para apresentar a moda Verão 2005/2006. Aos pouquinhos e delicadamente a renda criou uma identidade cultural tão forte que só de vê-la se sabe que é brasileira. Este é o tom. Nos versos de “A linha e o linho”, o compositor Gilberto Gil pescou como ninguém: “nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa, reproduzidos no bordado, a casa, a estrada, a correnteza, o sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza”.
Pontos de vista. Não dá, porém, para buscar apenas uma origem para nossos bordados e rendas. O nordeste foi colonizado por imigrantes vindos de vários países europeus cujos bordados resultavam de diferentes técnicas. “Os donos de engenhos da aristocracia de Sergipe na época da colônia iam buscar em Portugal, França e Itália roupas de cama e mesa, além de peças do vestuário feminino. As bordadeiras daqui passaram a copiar os pontos e as rendas e depois ensinavam para as moças da sociedade nos colégios de freiras. Era considerado de bom tom bordar o próprio enxoval e valorizava-se a delicadeza além do capricho no acabamento e no avesso das peças”, pontua Madalena Moreira. Essa designer é figura importante na renda sergipana, orientando e incentivando bordadeiras de pequenas comunidades. Considera sua loja, instalada no aeroporto de Aracaju, um lugar sagrado, onde são expostos os sonhos de suas parceiras, como ela gosta de chamar as artesãs.
As técnicas dos bordados e rendas também chegaram com os colonizadores portugueses, que por sua vez a receberam da Bélgica, França e Itália, centros dessa arte desde século 15.
No final do século 19 também circulavam no Brasil livros que traziam ensinamentos de grande variedade de rendas, com explicações minuciosas de como realizá-las. Nos difíceis e novos pontos apreendidos, nossas bordadeiras também deram sua manha. O hardanger, um dos pontos típicos, virou renda-de-dedo e evoluiu para rendendê. No caso desse ponto específico, a distinção conseguida pelas bordadeiras de Sergipe lhe valeu o título de renda sergipana.
Ponto de encontro. A renda foi se difundindo de porta em porta, chegando ao interior, se espalhando pelos vales, até aos pequenos vilarejos plantados nas margens do Rio São Francisco. Entre eles, Piranhas, engastada nas montanhas, num sobe e desce ladeiras. As casas são pintadas com as mesmas cores dos trabalhos em filé. Por um momento a visão de Piranhas nos remete a uma Grécia com as cores do Brasil. Do povoado parte-se de barco a motor para conhecer as bordadeiras do rio São Francisco, o Velho Chico. Em quarenta minutos chega-se à Vila de Entremontes que há duzentos anos vive da pesca e do bordado. Com apoio do Sebrae, do Projeto Artesanato Solidário e com a colaboração da consultora Verônica Paiva, no ano 2000 iniciou-se o Projeto Bordados de Entremontes. Instaladas numa antiga casa, totalmente restaurada, 52 artesãs trabalham na cambraia de linho ou no panamá, o rendendê e o ponto de marca, ou de cruz.
De volta ao rio, mais quinze minutos e desembarca-se no povoado de Ilha do Ferro. A poucos passos da margem, se localiza a sede da Art-Ilha, uma associação de 45 artesãs. O bordado dali bebe de uma única fonte, uma flor amarela denominada “boa-noite”. Flor e bordado se fundem no nome, assim como as técnicas de sua execução: o tecido é desfiado e torcido como na renda labirinto, mas se une aos pontos do rendendê. Este raro bordado, único no Brasil, apresenta quatro diferentes composições, o boa-noite simples, o boa-noite de flor, o cheio e o cheio com variação.
Do rio para o sertão, na localidade de Salgado, a matéria-prima ganhou sustança sem perder a beleza. Os bastidores das rendeiras deram lugar aos teares de pedal com lançadeira manual nos trabalhos da Tecelagem Descanso do Rei. Artesãs de mãos cheias inovaram a produção artesanal nordestina de mantas, tapetes, almofadas e redes onde predominam os tons quentes e a mais inquestionável qualidade.
Desde os delicados trabalhos das rendeiras até a trama densa nascida de mãos tecelãs, essas penélopes alagoanas e sergipanas vão colorindo o mundo.
Reportagem publicada na revista TAM Magazine