Raros são no mundo os lugares onde se pode ver a força criadora da natureza em contínua metamorfose. A ilha de Marajó é um desses. Nascida dos constantes depósitos de areia e terra que o Rio Amazonas despeja na entrada da maré atlântica, gerou-se a maior ilha fluviomarinha do mundo. Os índios a batizaram de Mbará-yó, que significa, o que foi retirado das águas ou o tapa-mar.
Os búfalos, marca registrada da ilha, chegaram acidentalmente. Conta-se que no início do século 20, um navio carregado desses animais, que se dirigia às Guianas, naufragou. Os sobreviventes alcançaram à costa e se aclimataram facilmente na região. No Marajó, adaptabilidade é atitude lapidar. Quando não sabe ao certo onde acaba a água, onde termina a terra, o caboclo vai de búfalo, forte e dócil. No seco, vai de cavalo marajoara e para ir mais longe vai de navio-gaiola, com o deck apinhado de redes coloridas. Seis meses por ano é pescador, e nos outros é vaqueiro e caçador. Não estivesse a ilha lastreada fortemente nessa vida concreta e dura, Marajó já estaria à deriva no mundo do sobrenatural, devido à fartura de tantos mitos, feitiços e divindades, como a Iara, mãe d água, o boto, Don Juan fluvial e a Boiúna, Cobra Grande.
Nessa paisagem mutante se desenvolveu uma civilização que criou as mais belas obras da arqueologia brasileira, a cerâmica marajoara. Mas os terrenos encharcados vão afogar a identidade do índio, desfazendo os adornos mais efêmeros, como as plumas, os tecidos, além da cestaria. Restaram apenas as igaçabas, grandes urnas depositárias das cinzas ou ossos do índio morto. Para elas os Marajoaras construíram monumentais aterros, os tesos. Quem viaja nessa paisagem cambiante entra na aventura permanente e volta vitalizado.
Mundaréu único
O Amazonas, ao topar com a ilha, engole terras, avança floresta adentro, gera furos, igarapés, riachos, igapós e águas emendadas de rio e mar que constituem os maiores canais deltaicos do planeta. Nesse universo-ilha existem palavras exclusivas para os costumes, fenômenos e acidentes de natureza. A pororoca é uma destas. É quando as águas do Atlântico invertem a correnteza do rio e juntas, formam uma grande onda de até três metros de altura e velocidade superior a trinta km/h. Mas ela não é uma disritmia da natureza como as tsunanis. A pororoca tem lua e hora certa para arrebentar. Os terrenos embebidos também têm nomes próprios: os matupás são os barrancos flutuantes e o solo pantanoso é o mondongo ou tereterê que atola e quebra as canelas. Só no Marajó se sabe o que é bufelétrico: nos dias de carnaval o búfalo puxa carroças com caixas de som a todo volume. Resistente e topa-tudo também leva crianças para a escola e serve de montaria à Polícia Militar. Chupitar, é curtir devagarzinho um sorvete de cupuaçu, de taperebá, ou outra exótica fruta da ilha, e se acastelar é se hospedar nas imponentes, mas rústicas fazendas marajoaras. Neste chic rural, os turistas, na sua maioria estrangeiros, deixam a ilha com dose extra de ousadia, “nadei ao lado de botos, andei de búfalo, fugi do mundo”, como se vangloria a parisiense Dominique Gayman
Bom Saber
Soure: a cidade é considerada a capital afetiva do Marajó. Seu nome deriva de Saurium, antiga ocupação romana em Portugal. Próximo do centro se localizam as praias do Pesqueiro, a preferida dos marajoaras, e a de Araruna, com sua beleza selvagem.
Cachoeira do Arari: inspirado na observação que o brasileiro tem olhos na ponta dos dedos, o padre italiano Giovanni Gallo criou, em 1972, nesta cidade o Museu do Marajó. Interativo e lúdico, possui original catalogação. Com móbiles, rodas, engenhocas e painéis ilustrativos, tipo Windows, desenvolveu verdadeiros computadores caipiras.
Carimbó: as morenas marajoaras se vestem de sereia e ilustram uma história de sedução dançando o carimbó. Enfeitam-se: as saias com estampas coloridas lembram as escamas fluorescentes da Iara. As blusas brancas e rendadas sugerem a espuma e colares de contas são as bolhas d águas. Grupos folclóricos se apresentam nas praças e praias nos finais de semana
Gastronomia: Uma deliciosa empreitada é conhecer a cozinha marajoara. Nela o tucupi é o sumo branco-amarelado da mandioca que entra na maioria dos pratos. O happy-hour marajoara é o ritual de tomar o tacacá. Servido em cuias, é preparado com pimenta, camarão e jambu, verdura que provoca leve dormência na boca. Outra especialidade é o filé marajoara de carne de búfalo. Além de saborosa, contém 40% menos de colesterol e 55% menos de calorias do que as outras carnes vermelhas.
Cerâmica marajoara – Formas despojadas mais riqueza de grafismos resultam em forte expressividade
Pesquisadores modernos estão compondo a história da civilização Marajoara e decifrando os mistérios que envolvem as relíquias dessa cultura, que durante mil anos, de 400 a 1400 a.D, se estabeleceu no numa vasta região da ilha. A arte Marajoara, por sua qualidade, deve ser considerada uma das mais admiráveis correntes estéticas da humanidade. Hoje, arqueólogos comprovam que esta cultura e sua manifestação artística são genuinamente brasileiras. Diferente de tecer os fios nos teares ou nos cestos, cujos traçados obedecem à rigidez do material, nas peças, riscando diretamente no barro úmido, a ceramista libera o desenho e tatuavam as igaçabas à semelhança do próprio corpo. Ao lado das urnas, foram encontrados: potes, tigelas, ídolos, alguidares, maracás e as tangas de barro. Únicas em todo mundo, eram modeladas de acordo com o corpo da índia. As igaçabas são representadas como uma grande coruja, animal da noite, símbolo da morte, que mostraria ao índio o caminho na longa travessia.
Reportagem publicada na revista Latitude