Visão de Mestre

“Ver só com os olhos, é fácil e vão, por dentro das coisas é que as coisas são”, (Carlos Queirós)

Por uma fresta de luz, no escuro da prisão, Graciliano Ramos vê Nise da Silveira. Descreve-a pálida e magra em “Memórias do Cárcere”. Sente que está triste, longe de seus amados doentes. Nise fôra denunciada por uma enfermeira que encontrou livros socialistas no pequeno quarto do hospital onde ela morava.

Nasceu em 1905 em Maceió, entrou na Faculdade aos quinze anos, formou-se médica psiquiátrica aos 21, única mulher entre 156 homens. Detida um ano e quatro meses, foi afastada oito anos do serviço público, por motivos políticos. Ao voltar, em 1944, repudiou os métodos de tratamento no Centro Psiquiátrico Nacional, localizado em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.

Mais de mil doentes mentais, ali, se apanemavam nos pátios. A visão dessas miseráveis e perturbadas criaturas causava repulsa. Médicos cegados pelo desconhecimento combatiam os males com um massacre de tentativas que iam de eletrochoques à coma insulínica e a pior de todas, a lobotomia, uma decapitação invisível.

Inconformada, Nise de imediato gera conflitos entre seus colegas que exigem sua demissão. Só lhe resta aceitar a incumbência de dar ocupações aos enfermos. Estes costuravam colchões e uniformes, limpavam banheiros, mais por razões econômicas do hospital do que como tratamento, uma vez que não existia na época a Terapia Ocupacional. Nise engenha, então, atividades como jardinagem, cestaria, música e teatro. Observando a melhora dos doentes, já em 1946 cria ateliês de pintura e modelagem numa pequena sala do hospital; pouco depois se instalam em um local maior, pois as obras eclodiam nos ateliês.

Instigada com a grande quantidade de círculos que apareciam nas pinturas e “como sou atrevida, escrevi para o Dr. Carl Gustav Jung perguntando se esses círculos seriam mandalas. Levei um grande susto de alegria ao receber a resposta afirmativa”, recordava Nise. As imagens levantavam questões sem resposta: como esquizofrênicos, do grego esquizo, partido, pessoas em pedaços, poderiam criar mandalas que representam a unidade e a ordenação?

Nise realiza uma exposição de pinturas que atrai olhares e mais polêmicas: muitos artistas e críticos de arte chocados não aceitam a qualificação de obra de arte. No entanto, artistas sadios enxergaram nesses quadros novos caminhos para a arte. Afinal, “a arte não é para ser normal, mas espera-se que seja inédita, imaginativa e imprevista”, como afirmou o pintor francês Jean Dubuffet.

Cada vez mais determinada e confiante Nise funda em 1952, nas dependências do hospital, o Museu de Imagens do Inconsciente. Apresenta uma exposição dessas pinturas no II Congresso de Psiquiatria em Zurique, aberta por Dr. Jung. Deixemos que ela fale: “o internado tem uma impressão triste. Mas, se você consegue olhar de um outro lado, verá tesouros incalculáveis. Eu que não era tola de olhar o lado decadente fui olhar o lado rico, e deste lado rico nasceu o Museu, que agora está fazendo o maior sucesso em uma exposição em Roma”. Reconhecida, a doutora recebe homenagens e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, como saúde, arte, educação e literatura.

Certo dia, um cão apareceu no hospital, foi adotado por um interno, e Nise notou melhora no comportamento desse doente. Decide, então, levar outros cachorros e gatos para mais pacientes, acreditando que a convivência com os animais seria de grande auxílio no processo terapêutico. Intuitiva, é precursora da terapia com animais que hoje faz parte do tratamento de autistas e de portadores de diferentes deficiências mentais, com resultados positivos. Encimando a porta de seu escritório ela compõe para si um despojado brasão: uma peneira ladeada por dois abanadores de palha, pois para ela a pesquisa deve ser peneirada sete vezes, e os abanadores são para manter o fogo da busca sempre aceso.

Aos 70 anos foi obrigada a se aposentar, mas… “No dia seguinte, se apresenta como estagiária voluntária. E foram 24 anos brilhantes dessa generosa estagiária, do qual saíram livros, reflexões, documentários, exposições e filmes”, conclui Luiz Carlos Mello, 53, atual diretor do MII.

 

Transmissão direta da alma

“Compondo fora de mim, minha vida interior”. (Fernando Pessoa)

Mello, que acompanhou por quase trinta anos a doutora, esclarece que sob o impacto de paixões descontroladas, afetos intensos que obscurecem a razão, o inconsciente se reativa em proporções extraordinárias, ameaçando submergir a consciência. Essa repressão, que põe em risco até a preservação da vida, provoca estímulos compensatórios, que partem do inconsciente e forçam a consciência à tona. Mesmo nos casos mais graves. Esses impulsos precisam irromper, não podem ser encobertos por tranqüilizantes, ou choques elétricos, que deixam o paciente embotado, como um autômato sem emoção. A pintura, ao contrário, presentifica, trazendo à luz o sofrimento que estava invisível. “Ao dar forma às suas emoções o doente despotencializa as figuras ameaçadoras”, sintetiza Mello.
O que perturbou Jung, além da grande quantidade de mandalas, pois entre as pinturas de seus pacientes só apareceram três ou quatro, foi que nas pinturas dos pacientes da doutora, mesmo nas de configuração mais dramática, os fundos eram harmoniosos. Ela acreditava que isso se devia ao ambiente acolhedor dos ateliês, sem grades nas janelas, sem frascos de remédios à mostra e com clima excelente de relacionamento entre doentes e cuidadores. “Se o amor faltou e causou a doença, dar amor pode curar”. Os quadros e esculturas foram permitindo tangenciar a obscuridade do inconsciente e encontrar naquele mundo de rabiscos iniciais o fio condutor. As obras podiam começar a falar por eles. As mandalas são um processo autocurativo da mente.

O método de leitura das obras consiste no estudo da série de imagens, pois isoladas parecem incompreensíveis. Assim, a obra de cada paciente, ou hóspede, como Nise preferia dizer, é um dossiê completo, que permite aos médicos investigar e estudar os múltiplos desdobramentos do inconsciente. É o que o escritor Antonin Artaud definiu como “os inumeráveis estados do ser, cada vez mais perigosos”. Mas a pintura e a escultura também têm o mérito de devolver ao criador o que lhe vai por dentro da alma e que ainda não pode ser visto.

Um dos doentes considerados crônicos, Fernando Diniz, tido pelos médicos como em estado grave de deterioração, depois de freqüentar os ateliês e produzir mais de trinta mil obras e milhares de estudos para um desenho animado, conta: “o primeiro desenho que aprendi foi uma gota d’água, depois uma pêra, uma folha, eu pensava, um dia vou aprender isso por dentro”.

 

Lições de ver

Certa manhã, na década de 30, enquanto se barbeava, Carlos Pertuis viu o sol se refletir no espelho e subitamente teve uma visão cósmica, passando a afirmar que havia contemplado o Planetário de Deus. Assustada com suas fortes reações, a família o internou no mesmo dia da visão. Nove anos mais tarde, depois de passar a freqüentar o ateliê de Nise, Carlos emergiu de seu prolongado torpor e reproduziu aquela visão: duas serpentes negras que parecem sentinelas envolvem uma flor de pétalas de ouro. Na China antiga a flor de ouro é uma das representações de Deus. Durante o resto de sua vida ele iria criou algo em torno de 21 mil obras. Jacob Boheme, por sua vez, um sapateiro suíço, teve um flash semelhante, só que agüentou o tranco e acabou se transformando num místico respeitado em todo o mundo.

Adelina Gomes, outra interna, cujo distúrbio veio da forte repressão da mãe à sua paixão por um jovem, ao modelar no barro o aspecto materno negativo foi purificando e clareando as imagens persecutórias. Produziu 17 mil obras.

Raphael Domingues apresentava gravíssima manifestação esquizofrênica. Fazia tracinhos na parede da enfermaria quando foi convidado a freqüentar os ateliês. A delicadeza, precisão e pureza de seus traços são comparadas às melhores obras de Matisse ou Klee. Quando o monitor do ateliê, a quem ele tinha se afeiçoado, precisou ir embora, Rafael simplesmente voltou a desenhar os tracinhos.

Lucio Noeman se auto-intitulava Guerreiro do Bem. Suas esculturas eram tão lúcidas quanto altivas. Foi lobotomizado, e seu primeiro trabalho após a cirurgia reproduz seu cérebro cortado ao meio por uma serpente. Depois, mais nada, apenas massas disformes.

Hoje, mais de 300 mil obras, entre pinturas, modelagens e xilogravuras, integram o acervo do MII. Muitas instituições no Brasil e no exterior foram criadas a partir do trabalho de Nise. Association Nise da Silveira Images de L’Inconscient, Paris; Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli, Gênova; Centro de Estudos de Imagens do Inconsciente, na cidade do Porto, além de instituições em Recife, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte.
Nise não olhou o aspecto externo dos doentes, mas o rico interior. Viu a possibilidade de cura, viu o doente como um ser criativo, viu nas produções dos doentes pistas para a concepção cientifica do inconsciente, possibilitou que o doente se visse nas próprias obras, fez com que artistas vissem a arte com outros olhos e permitiu que críticos de arte revissem conceitos, anteviu a Terapia Ocupacional e a cura pelo afeto aos animais. Enfim, mostrou inumeráveis estados de ver. Mas viu e demonstrou, sobretudo, que o amor estimula a criatividade. E a cura.

 

Reportagem publicada na revista Planeta