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	<title>Heitor Reali</title>
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		<title>Guia Amazônia 1</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 18:02:55 +0000</pubDate>
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		<title>Lampião, grande homem pelo avesso</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:34:48 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[“Conheceu Lampião? Não? Então não conhece nada.” A fala de Arlindo dos Santos, 85, morador da Rasa da Catarina, na Bahia, toca o centro do labirinto que envolve a vida do rei do cangaço. Arlindo foi um dos muitos coiteiros que ajudou a esconder e a proteger Virgulino Ferreira da Silva. A saga do maior [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Conheceu Lampião? Não? Então não conhece nada.” A fala de Arlindo dos Santos, 85, morador da Rasa da Catarina, na Bahia, toca o centro do labirinto que envolve a vida do rei do cangaço. Arlindo foi um dos muitos coiteiros que ajudou a esconder e a proteger Virgulino Ferreira da Silva.</p>
<p>A saga do maior bandido da história brasileira é um dos episódios sociais mais instigantes da América do Sul. Nas últimas décadas surgiram no Brasil várias publicações de estudiosos do cangaço que ora lhe dão uma aparência poética de justiceiro, de vindicatório do povo, ora destacam os feitos do facínora. O episódio cangaço, que teve um tempo histórico de mais de cem anos e mobilizou todos os Estados do nordeste, nunca teve o alcance da Guerra de Canudos. Esta, embora mais restrita e menos duradoura, se preserva na memória histórica nacional pela força do testemunho de Euclides da Cunha e do imaginário popular. Quanto ao cangaço, mesmo conhecidas as vozes da maioria de seus personagens, falta a voz do homem que teve o poder de decidir. Os outros ficaram como aprendizes de feiticeiro. Assim, a despeito de pesquisas de historiadores sinceros, a falta de um narrador, mesmo sem a envergadura de um Euclides da Cunha, lança na ambivalência a grandeza épica daquele homem.</p>
<p>A menção do nome Lampião e seu bando imediatamente evoca as imagens de “momentos Kodak” realizadas nos anos 30 pelo mascate libanês Benjamin Abrahão. Aqui, porém as fotos não valem mil palavras. Na Guerra de Canudos, 40 anos antes, tivemos o fotógrafo-expedicionário Flávio de Barros que acompanhou as tropas republicanas e documentou os fatos no calor da hora.<br />
Para além das fotos posadas nos cliques de Benjamin, e com base em livros de autores famosos, temos a visão do cangaço por cineastas como Lima Barreto de “O Cangaceiro”, Glauber Rocha de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Lírio Ferreira e Paulo Caldas de “Baile Perfumado” e Rosemberg Cariry de “Corisco e Dadá”, este em estilo realista, despojado de fantasia.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Tangenciando essas imagens parti para tentar compreender o cangaço nos sertões arcaicos do nordeste que serviram de cenário para manifestações de religiosidade, missões católicas e cristianismo primitivo, como as do Conselheiro, da Beata e do Padre Cícero Romão; do coronelismo e das raízes desse banditismo sem similaridade no mundo. O que me interessava era o momento histórico daquela violência, seja dos cangaceiros, seja das volantes, a força policial. O que ouvi foi um vai-e-vem contínuo entre imaginário e real. Parafraseando o escritor Josué de Castro, a verdade é que a história dos homens do nordeste me entrou muito mais pelos olhos do que pelos ouvidos.</p>
<p>Os sertanejos interagem com seu mundo, e suas vidas são marcadas pelo encontro com a diversidade. O sertão, com sua paisagem de tirar o fôlego, inóspita, desolada, abatida por secas cataclísmicas, não é palco para amadores. Culturas alicerçadas no domínio do medo parecem prisioneiras de um futuro ao qual não se dá a menor importância: aconteça o que acontecer, é o destino. Vivem se desculpando e vivem agradecendo.</p>
<p>A aura de misticismo que recobre os “lampiões”, com casos reais ou fantasiosos, mas todos absolutamente sinceros e fincados no solo fértil da imaginação, faz o queixo cair. Crimes, estupros, castrações, mutilações, tiro ao alvo em caminhantes, degolas, seqüestros, surras e rostos de mulheres marcado a ferro, à moda do gado, eram praxe de muitos cangaceiros e desestruturam os mitos de bondade ou de “Robin Hood” que acompanham muitas histórias.</p>
<p>O certo também é que os principais cangaceiros, os de sanha brava, como Lampião, Corisco e Labareda, nasceram mansos e se tornaram cruéis. Lampião acerta as contas do pai injustamente acusado de roubo. Labareda vinga a irmã mais nova ameaçada de rapto por um sargento. Na época, procurou a justiça relatando esse fato. Foi aconselhado pelo juiz de direito da cidade a fazer o mesmo com a irmã do policial. Corisco, um dos mais violentos cangaceiros, era militar, apoiou uma revolta de tropa, foi preso, fugiu. Dispersos, ficaram entregues a um mundo caótico. Ali traçaram as linhas de batalha e se prepararam para o ciclo de violência que iria se desbobinar.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Filho, é soldado ou cangaceiro?”. Pedro de Tecila, 94, morador de Olho D`Água do Casado, Alagoas, então com 20 anos, olhando e tremendo pela fresta da janela, responde para a mãe. “É Lampião!” Pedro reviveu na entrevista aqueles instantes – com voz falha e angústia no peito –, seu primeiro contato com Lampião. Ao descrever esse encontro, falta-lhe o ar, o terror continua presente mesmo depois de mais de setenta anos. “Chapéus voltados para trás, todos a cavalo. Eram treze homens e três mulheres, cabelos longos até os ombros, ouro para todo lado e fuzis enfeitados. Me faltou a fala ao tentar responder o cumprimento do Capitão. Eu gaguejava. Ele queria saber de quem era aquela fazenda e se tinha cavalos”.</p>
<p>Pedro sabia que não havia segunda chance na vida “se os cabras não fossem com a tua cara”. Eles despertavam ao mesmo tempo repulsa e fascínio. Muitos jovens se alistaram nas hordas do cangaceirismo, arrebatados pelas histórias, pelas roupas azul-escuro (da mesma cor da túnica de Antonio Conselheiro), pelos lenços bordados daqueles homens que se enfeitavam em demasia. Sempre ao pé do cadafalso, quer pelas leis do cangaço, quer pela ordem das volantes, os sertanejos eram almas cativas da dor.</p>
<p>“Vá buscar e venha nesse instante”, respondeu Lampião quando Pedro disse que tinha um cavalo. “Saí correndo e tropeçando, quando me lembrei da burra. E agora?” Para aqueles homens que assumiam o papel do Estado com suas próprias regras de justiça, a deslealdade e a mentira eram punidas com pena de morte, e Pedro sabia disso. “Burra manhosa que só o diabo. Demorei.” Ele percebeu. “Deixa a burra”, lancetou Lampião “e nos acompanhe para ensinar o caminho. Ficamos amigos”. Mais tarde Pedro se tornaria um coiteiro de confiança do grupo. “O Capitão conversava muito, recordo também que ele nunca sorria. Às vezes levantava acampamento perto daqui por até quinze dias. Certa vez, ao passar na fazenda Aroeira, matou 40 vacas e ateou fogo na cerca, no curral e na sede. Ficou só o pó. Era represália ao dono que não tinha mandado o dinheiro que ele pediu. Numa outra ele recebeu um bilhete do fazendeiro que mandava só um dinheirinho porque não tinha conseguido mais. Lampião reúne o bando e fala grosso. Esse homem tem respeito meu por ter mandado a carta.”</p>
<p>Pedro de Tecila faz a narrativa de seus contatos com o Capitão seguindo uma cronologia baseada nos anos de estiagem. Conheceu Lampião logo depois da grande seca (1932) e, sorrindo, conta a história do único dia em que o rei do cangaço teve medo. “Naquele tempo eu tinha um garrote bravio que não havia jeito. Para amansá-lo, amarrei uma lata das grandes de querosene cheia de mandacarus bem espinhudos no rabo do bicho para ele aprender. Quando apertei o nó, o garrote fugiu berrando e arrastando a lata em direção ao esconderijo de Lampião. No dia seguinte fui levar leite para o bando e encontrei Lampião com uma cara danada. Que houve Capitão? Pedro, ontem à noite o barulho e a zoada da besta-fera foram horríveis. Pensamos que íamos morrer todos.</p>
<p>Conhecendo a fera que Lampião era, não contei nada”, se diverte Pedro e completa: “Ele foi bom pra mim”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Pode um mesmo nome suscitar emoções tão diversas? Ao lado de uma ficha criminal extensa, o bando de Lampião dá sinais e testemunho de dimensão poética. São histórias emocionantes.</p>
<p>Antonia, 107, primeira mulher do feroz cangaceiro Gato, abandonou as hordas depois que seu marido se amasiou com Inacinha. Reclamou com Lampião, mas a decisão ficou com Gato que, tempos depois, iria demonstrar todo o seu amor pela amante ao morrer em combate tentando resgatá-la quando presa e ferida na cidade de Piranhas, Alagoas. Lampião tampouco intercedeu em favor de Lídia, mulher de Zé Baiano, quando ela o traiu com outro cangaceiro: cortou a cabeça do delator, mas entregou a bela Lídia à justiça do marido, que a matou ali mesmo, a golpes de porrete. Em outra ocasião o Capitão mandou matar o cangaceiro Sabiá, que havia estuprado uma parente de um coiteiro. Sabino, lugar-tenente de Lampião, muito ferido em combate com a volante e após oito dias de sofrimento, pediu ao chefe que o matasse, mas ele não aceitou. A tarefa acabou sendo realizada pelo cangaceiro Mergulhão que lhe deu o tiro de misericórdia.</p>
<p>Segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello, “Lampião era pai e marido amoroso, e se deve a ele a introdução no cangaço do oficio religioso coletivo, das mulheres em caráter permanente, da logística dos equipamentos e suprimentos bélicos, da guerra psicológica”, e de muitas outras artimanhas necessárias para uma sobrevivência na caatinga.Grande dançarino, organizava com seus coiteiros ao menos dois bailes semanais. Ainda de acordo com Pernambucano de Mello, “o traje do cangaceiro tinha apuro ornamental. Cheio de cores vivas e harmoniosas nos lenços bordados, nos bornais e frisos das cartucheiras e nas perneiras”. Também usavam muito perfume e muitos anéis.O chapéu em estilo napoleônico era coroado de moedas de ouro e prata.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>“Vi o chapéu clarear”. Esta foi a descrição de Arlindo dos Santos ao ver Lampião pela primeira vez. Os testemunhos são unânimes quando se fala no modo de vestir, nos perfumes e nos bailes dos cangaceiros. Conta-se que quando o bando chegava, a pergunta era: “tem macaco na Várzea (em referência aos policiais)? Não! Então era uma festa só. A mulherada vinha toda. Quase furavam o chão de tanto dançar. Sanfoneiro tocando, uma beleza, música miudinha e valsa”. O xaxado era uma dança muito difundida no bando de Lampião, e eles a executavam batendo com a coronha dos rifles no chão marcando o ritmo da música. Arlindo prossegue: “Eles todos perfumados. Os frascos de perfume já eram uma beleza, eles davam para as mulheres&#8230; só os vazios”. Quando perguntado o que achava de Lampião, não hesitou. “Era um bandido bom.”</p>
<p>Depois que as volantes começaram a entregar armas para os sertanejos se defenderem, o bando deixou de se esconder ali. Vera Ferreira, jornalista e neta de Lampião, perguntou a Arlindo: “Se pudesse atiraria no chefe dos cangaceiros?”. De pronto finalizou o coiteiro: “Sim, a polícia pedia”. Tal ambivalência faz a história desse período tão interessante.</p>
<p>Vera Ferreira se dedica hoje a coletar dados e material para o futuro Memorial do Cangaço. Ela não quer tomar partido se o avô era bom, ou ruim. O importante é revelar a verdade sobre aquelas décadas, as razões que levaram essa gente a ser cangaceiro. “Muitas atrocidades cometidas em nome do meu avô são infundáveis. Provas não faltam para esclarecer que, nas datas desses crimes, o bando de Lampião não estava lá”, atesta Vera e completa: “Gostaríamos que o Memorial fosse em Canindé de São Francisco, cidade sergipana, perto da Grota do Angico onde, em 28 de julho de 1938, morreram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros. O projeto arquitetônico já temos. Terá auditório, biblioteca, sala de exposições com grande acervo de roupas, fotografias, enfim tudo sobre o cangaço. Estamos procurando patrocinadores”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Já se escreveu e se pesquisou tanto sobre o rei do cangaço que parece improvável a descoberta de aspectos inusitados. Há, contudo, um tópico pouco esclarecedor. É sobre a morte de Lampião. “Boi no Pasto” – o telegrama do sargento Aniceto, de Piranhas, para o comandante Bezerra, após delação do coiteiro Antonio da Piçarra de que Lampião estava na redondeza precipitou o fim do cangaço. Mesmo traído por que Lampião, estrategista nato, teria escolhido a Grota do Angico, um buraco, para acampar por quinze dias? Como mais de cinqüenta cangaceiros foram pegos de surpresa por um grupo de aproximadamente 40 policiais que caminharam e rastejaram morro acima por quase duas horas? Como os cães e os vigias de Lampião não notaram nada? Para Elias Alencar, 87, vizinho do coiteiro Pedro de Tecila, e que participou da volante naquele dia, era a hora H do dia D de Lampião. “Atracamos à margem do Rio São Francisco, vindo de Entremontes às 4horas. Às 6 começamos a subir a encosta e nos dividimos em três grupos. Um se perdeu e não participou da batalha. De repente, no meio de uma neblina enorme, começou o tiroteio. A ordem de combate não tinha sido autorizada, mas o cangaceiro Amoroso foi fazer xixi e deu de cara com um volante. Entre fumaça e névoa não se enxergava nada. Dei tiro a esmo durante uns quinze minutos. Pensei que estava ferido, pois sangrava muito na cabeça, mas eram estilhaços das pedras que voavam para todo o lado e me acertaram. Quando parou o tiroteio, Lampião e Maria Bonita já estavam mortos. Só vi as cabeças decepadas em Piranhas quando foram colocadas na escadaria da Prefeitura local.” O resto do bando debandou. Alguns foram presos, a maioria se entregou. O cangaço terminou naquele dia às 8horas. Anos depois os cangaceiros voltaram à vida livre e nenhum retornou à marginalidade.</p>
<p>Ainda nas palavras do coiteiro Arlindo, vislumbrei a melhor pegada de Lampião. “Capitão, o que devo dizer se a volante aparecer lhe procurando? – Diga que passei por aqui, amando e querendo bem, pegue meu rastro”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Reportagem publicada na revista Brasileiros</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Visão de Mestre</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:31:47 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Reportagens]]></category>

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		<description><![CDATA[“Ver só com os olhos, é fácil e vão, por dentro das coisas é que as coisas são”, (Carlos Queirós) Por uma fresta de luz, no escuro da prisão, Graciliano Ramos vê Nise da Silveira. Descreve-a pálida e magra em “Memórias do Cárcere”. Sente que está triste, longe de seus amados doentes. Nise fôra denunciada [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>“Ver só com os olhos, é fácil e vão, por dentro das coisas é que as coisas são”, (Carlos Queirós)</p>
<p>Por uma fresta de luz, no escuro da prisão, Graciliano Ramos vê Nise da Silveira. Descreve-a pálida e magra em “Memórias do Cárcere”. Sente que está triste, longe de seus amados doentes. Nise fôra denunciada por uma enfermeira que encontrou livros socialistas no pequeno quarto do hospital onde ela morava.</p>
<p>Nasceu em 1905 em Maceió, entrou na Faculdade aos quinze anos, formou-se médica psiquiátrica aos 21, única mulher entre 156 homens. Detida um ano e quatro meses, foi afastada oito anos do serviço público, por motivos políticos. Ao voltar, em 1944, repudiou os métodos de tratamento no Centro Psiquiátrico Nacional, localizado em Engenho de Dentro, Rio de Janeiro.</p>
<p>Mais de mil doentes mentais, ali, se apanemavam nos pátios. A visão dessas miseráveis e perturbadas criaturas causava repulsa. Médicos cegados pelo desconhecimento combatiam os males com um massacre de tentativas que iam de eletrochoques à coma insulínica e a pior de todas, a lobotomia, uma decapitação invisível.</p>
<p>Inconformada, Nise de imediato gera conflitos entre seus colegas que exigem sua demissão. Só lhe resta aceitar a incumbência de dar ocupações aos enfermos. Estes costuravam colchões e uniformes, limpavam banheiros, mais por razões econômicas do hospital do que como tratamento, uma vez que não existia na época a Terapia Ocupacional. Nise engenha, então, atividades como jardinagem, cestaria, música e teatro. Observando a melhora dos doentes, já em 1946 cria ateliês de pintura e modelagem numa pequena sala do hospital; pouco depois se instalam em um local maior, pois as obras eclodiam nos ateliês.</p>
<p>Instigada com a grande quantidade de círculos que apareciam nas pinturas e “como sou atrevida, escrevi para o Dr. Carl Gustav Jung perguntando se esses círculos seriam mandalas. Levei um grande susto de alegria ao receber a resposta afirmativa”, recordava Nise. As imagens levantavam questões sem resposta: como esquizofrênicos, do grego esquizo, partido, pessoas em pedaços, poderiam criar mandalas que representam a unidade e a ordenação?</p>
<p>Nise realiza uma exposição de pinturas que atrai olhares e mais polêmicas: muitos artistas e críticos de arte chocados não aceitam a qualificação de obra de arte. No entanto, artistas sadios enxergaram nesses quadros novos caminhos para a arte. Afinal, “a arte não é para ser normal, mas espera-se que seja inédita, imaginativa e imprevista”, como afirmou o pintor francês Jean Dubuffet.</p>
<p>Cada vez mais determinada e confiante Nise funda em 1952, nas dependências do hospital, o Museu de Imagens do Inconsciente. Apresenta uma exposição dessas pinturas no II Congresso de Psiquiatria em Zurique, aberta por Dr. Jung. Deixemos que ela fale: “o internado tem uma impressão triste. Mas, se você consegue olhar de um outro lado, verá tesouros incalculáveis. Eu que não era tola de olhar o lado decadente fui olhar o lado rico, e deste lado rico nasceu o Museu, que agora está fazendo o maior sucesso em uma exposição em Roma”. Reconhecida, a doutora recebe homenagens e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, como saúde, arte, educação e literatura.</p>
<p>Certo dia, um cão apareceu no hospital, foi adotado por um interno, e Nise notou melhora no comportamento desse doente. Decide, então, levar outros cachorros e gatos para mais pacientes, acreditando que a convivência com os animais seria de grande auxílio no processo terapêutico. Intuitiva, é precursora da terapia com animais que hoje faz parte do tratamento de autistas e de portadores de diferentes deficiências mentais, com resultados positivos. Encimando a porta de seu escritório ela compõe para si um despojado brasão: uma peneira ladeada por dois abanadores de palha, pois para ela a pesquisa deve ser peneirada sete vezes, e os abanadores são para manter o fogo da busca sempre aceso.</p>
<p>Aos 70 anos foi obrigada a se aposentar, mas&#8230; “No dia seguinte, se apresenta como estagiária voluntária. E foram 24 anos brilhantes dessa generosa estagiária, do qual saíram livros, reflexões, documentários, exposições e filmes”, conclui Luiz Carlos Mello, 53, atual diretor do MII.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Transmissão direta da alma</p>
<p>“Compondo fora de mim, minha vida interior”. (Fernando Pessoa)</p>
<p>Mello, que acompanhou por quase trinta anos a doutora, esclarece que sob o impacto de paixões descontroladas, afetos intensos que obscurecem a razão, o inconsciente se reativa em proporções extraordinárias, ameaçando submergir a consciência. Essa repressão, que põe em risco até a preservação da vida, provoca estímulos compensatórios, que partem do inconsciente e forçam a consciência à tona. Mesmo nos casos mais graves. Esses impulsos precisam irromper, não podem ser encobertos por tranqüilizantes, ou choques elétricos, que deixam o paciente embotado, como um autômato sem emoção. A pintura, ao contrário, presentifica, trazendo à luz o sofrimento que estava invisível. “Ao dar forma às suas emoções o doente despotencializa as figuras ameaçadoras”, sintetiza Mello.<br />
O que perturbou Jung, além da grande quantidade de mandalas, pois entre as pinturas de seus pacientes só apareceram três ou quatro, foi que nas pinturas dos pacientes da doutora, mesmo nas de configuração mais dramática, os fundos eram harmoniosos. Ela acreditava que isso se devia ao ambiente acolhedor dos ateliês, sem grades nas janelas, sem frascos de remédios à mostra e com clima excelente de relacionamento entre doentes e cuidadores. “Se o amor faltou e causou a doença, dar amor pode curar”. Os quadros e esculturas foram permitindo tangenciar a obscuridade do inconsciente e encontrar naquele mundo de rabiscos iniciais o fio condutor. As obras podiam começar a falar por eles. As mandalas são um processo autocurativo da mente.</p>
<p>O método de leitura das obras consiste no estudo da série de imagens, pois isoladas parecem incompreensíveis. Assim, a obra de cada paciente, ou hóspede, como Nise preferia dizer, é um dossiê completo, que permite aos médicos investigar e estudar os múltiplos desdobramentos do inconsciente. É o que o escritor Antonin Artaud definiu como “os inumeráveis estados do ser, cada vez mais perigosos”. Mas a pintura e a escultura também têm o mérito de devolver ao criador o que lhe vai por dentro da alma e que ainda não pode ser visto.</p>
<p>Um dos doentes considerados crônicos, Fernando Diniz, tido pelos médicos como em estado grave de deterioração, depois de freqüentar os ateliês e produzir mais de trinta mil obras e milhares de estudos para um desenho animado, conta: “o primeiro desenho que aprendi foi uma gota d’água, depois uma pêra, uma folha, eu pensava, um dia vou aprender isso por dentro”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Lições de ver</p>
<p>Certa manhã, na década de 30, enquanto se barbeava, Carlos Pertuis viu o sol se refletir no espelho e subitamente teve uma visão cósmica, passando a afirmar que havia contemplado o Planetário de Deus. Assustada com suas fortes reações, a família o internou no mesmo dia da visão. Nove anos mais tarde, depois de passar a freqüentar o ateliê de Nise, Carlos emergiu de seu prolongado torpor e reproduziu aquela visão: duas serpentes negras que parecem sentinelas envolvem uma flor de pétalas de ouro. Na China antiga a flor de ouro é uma das representações de Deus. Durante o resto de sua vida ele iria criou algo em torno de 21 mil obras. Jacob Boheme, por sua vez, um sapateiro suíço, teve um flash semelhante, só que agüentou o tranco e acabou se transformando num místico respeitado em todo o mundo.</p>
<p>Adelina Gomes, outra interna, cujo distúrbio veio da forte repressão da mãe à sua paixão por um jovem, ao modelar no barro o aspecto materno negativo foi purificando e clareando as imagens persecutórias. Produziu 17 mil obras.</p>
<p>Raphael Domingues apresentava gravíssima manifestação esquizofrênica. Fazia tracinhos na parede da enfermaria quando foi convidado a freqüentar os ateliês. A delicadeza, precisão e pureza de seus traços são comparadas às melhores obras de Matisse ou Klee. Quando o monitor do ateliê, a quem ele tinha se afeiçoado, precisou ir embora, Rafael simplesmente voltou a desenhar os tracinhos.</p>
<p>Lucio Noeman se auto-intitulava Guerreiro do Bem. Suas esculturas eram tão lúcidas quanto altivas. Foi lobotomizado, e seu primeiro trabalho após a cirurgia reproduz seu cérebro cortado ao meio por uma serpente. Depois, mais nada, apenas massas disformes.</p>
<p>Hoje, mais de 300 mil obras, entre pinturas, modelagens e xilogravuras, integram o acervo do MII. Muitas instituições no Brasil e no exterior foram criadas a partir do trabalho de Nise. Association Nise da Silveira Images de L’Inconscient, Paris; Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli, Gênova; Centro de Estudos de Imagens do Inconsciente, na cidade do Porto, além de instituições em Recife, Salvador, Porto Alegre e Belo Horizonte.<br />
Nise não olhou o aspecto externo dos doentes, mas o rico interior. Viu a possibilidade de cura, viu o doente como um ser criativo, viu nas produções dos doentes pistas para a concepção cientifica do inconsciente, possibilitou que o doente se visse nas próprias obras, fez com que artistas vissem a arte com outros olhos e permitiu que críticos de arte revissem conceitos, anteviu a Terapia Ocupacional e a cura pelo afeto aos animais. Enfim, mostrou inumeráveis estados de ver. Mas viu e demonstrou, sobretudo, que o amor estimula a criatividade. E a cura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Reportagem publicada na revista Planeta</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Penélopes tropicais</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:28:59 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Ponto de Partida: Brasil, século 17. A cabocla deu com os olhos nas golas e punhos brancos e bordados do sóbrio vestido da imigrante holandesa. Esperta, achou parecido com a rede dos pescadores. Encasquetou de recriar os pontos. Inventiva, foi logo acrescentando novos trançados, tramas, substituindo linhas e fitas, enfim adaptando para ficar bonito, do [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ponto de Partida: Brasil, século 17. A cabocla deu com os olhos nas golas e punhos brancos e bordados do sóbrio vestido da imigrante holandesa. Esperta, achou parecido com a rede dos pescadores. Encasquetou de recriar os pontos. Inventiva, foi logo acrescentando novos trançados, tramas, substituindo linhas e fitas, enfim adaptando para ficar bonito, do seu jeito e de seu mundo. Deste, tirou os nomes para batizar os pontos: pipoca, dente-de-jegue, aranha, cocada, olhinho de pombo, perna-esquecida, jasmim, vassourinha, etc. Desse país de sol em excesso, de céu tão azul e de mar tão verde, da exuberância de altares barrocos, foi recolhendo e brincando com as cores e tramas, tropicalizando os bordados europeus. Nascia assim, em pequenos povoados à beira-mar de Alagoas e Sergipe, o talento e a bossa que séculos depois se consagrariam nos Fashionweeks e seriam publicado na Newsweek: “o Brasil está na moda” e faz moda.</p>
<p>As rendas alagoanas e sergipanas brilharam nas passarelas dos desfiles do estilista Ronaldo Fraga, que usou bordados brasileiros em sua coleção Verão 2003/2004. Considerado por especialistas como histórico, o desfile de Amir Slama inovou com maiôs coloridos em renda filé, ultratropicais, para apresentar a moda Verão 2005/2006. Aos pouquinhos e delicadamente a renda criou uma identidade cultural tão forte que só de vê-la se sabe que é brasileira. Este é o tom. Nos versos de “A linha e o linho”, o compositor Gilberto Gil pescou como ninguém: “nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa, reproduzidos no bordado, a casa, a estrada, a correnteza, o sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza”.</p>
<p>Pontos de vista. Não dá, porém, para buscar apenas uma origem para nossos bordados e rendas. O nordeste foi colonizado por imigrantes vindos de vários países europeus cujos bordados resultavam de diferentes técnicas. “Os donos de engenhos da aristocracia de Sergipe na época da colônia iam buscar em Portugal, França e Itália roupas de cama e mesa, além de peças do vestuário feminino. As bordadeiras daqui passaram a copiar os pontos e as rendas e depois ensinavam para as moças da sociedade nos colégios de freiras. Era considerado de bom tom bordar o próprio enxoval e valorizava-se a delicadeza além do capricho no acabamento e no avesso das peças”, pontua Madalena Moreira. Essa designer é figura importante na renda sergipana, orientando e incentivando bordadeiras de pequenas comunidades. Considera sua loja, instalada no aeroporto de Aracaju, um lugar sagrado, onde são expostos os sonhos de suas parceiras, como ela gosta de chamar as artesãs.</p>
<p>As técnicas dos bordados e rendas também chegaram com os colonizadores portugueses, que por sua vez a receberam da Bélgica, França e Itália, centros dessa arte desde século 15.</p>
<p>No final do século 19 também circulavam no Brasil livros que traziam ensinamentos de grande variedade de rendas, com explicações minuciosas de como realizá-las. Nos difíceis e novos pontos apreendidos, nossas bordadeiras também deram sua manha. O hardanger, um dos pontos típicos, virou renda-de-dedo e evoluiu para rendendê. No caso desse ponto específico, a distinção conseguida pelas bordadeiras de Sergipe lhe valeu o título de renda sergipana.</p>
<p>Ponto de encontro. A renda foi se difundindo de porta em porta, chegando ao interior, se espalhando pelos vales, até aos pequenos vilarejos plantados nas margens do Rio São Francisco. Entre eles, Piranhas, engastada nas montanhas, num sobe e desce ladeiras. As casas são pintadas com as mesmas cores dos trabalhos em filé. Por um momento a visão de Piranhas nos remete a uma Grécia com as cores do Brasil. Do povoado parte-se de barco a motor para conhecer as bordadeiras do rio São Francisco, o Velho Chico. Em quarenta minutos chega-se à Vila de Entremontes que há duzentos anos vive da pesca e do bordado. Com apoio do Sebrae, do Projeto Artesanato Solidário e com a colaboração da consultora Verônica Paiva, no ano 2000 iniciou-se o Projeto Bordados de Entremontes. Instaladas numa antiga casa, totalmente restaurada, 52 artesãs trabalham na cambraia de linho ou no panamá, o rendendê e o ponto de marca, ou de cruz.</p>
<p>De volta ao rio, mais quinze minutos e desembarca-se no povoado de Ilha do Ferro. A poucos passos da margem, se localiza a sede da Art-Ilha, uma associação de 45 artesãs. O bordado dali bebe de uma única fonte, uma flor amarela denominada “boa-noite”. Flor e bordado se fundem no nome, assim como as técnicas de sua execução: o tecido é desfiado e torcido como na renda labirinto, mas se une aos pontos do rendendê. Este raro bordado, único no Brasil, apresenta quatro diferentes composições, o boa-noite simples, o boa-noite de flor, o cheio e o cheio com variação.</p>
<p>Do rio para o sertão, na localidade de Salgado, a matéria-prima ganhou sustança sem perder a beleza. Os bastidores das rendeiras deram lugar aos teares de pedal com lançadeira manual nos trabalhos da Tecelagem Descanso do Rei. Artesãs de mãos cheias inovaram a produção artesanal nordestina de mantas, tapetes, almofadas e redes onde predominam os tons quentes e a mais inquestionável qualidade.</p>
<p>Desde os delicados trabalhos das rendeiras até a trama densa nascida de mãos tecelãs, essas penélopes alagoanas e sergipanas vão colorindo o mundo.</p>
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<p>Reportagem publicada na revista TAM Magazine</p>
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		<title>Pororoca e Carimbó</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:22:38 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Raros são no mundo os lugares onde se pode ver a força criadora da natureza em contínua metamorfose. A ilha de Marajó é um desses. Nascida dos constantes depósitos de areia e terra que o Rio Amazonas despeja na entrada da maré atlântica, gerou-se a maior ilha fluviomarinha do mundo. Os índios a batizaram de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Raros são no mundo os lugares onde se pode ver a força criadora da natureza em contínua metamorfose. A ilha de Marajó é um desses. Nascida dos constantes depósitos de areia e terra que o Rio Amazonas despeja na entrada da maré atlântica, gerou-se a maior ilha fluviomarinha do mundo. Os índios a batizaram de Mbará-yó, que significa, o que foi retirado das águas ou o tapa-mar.</p>
<p>Os búfalos, marca registrada da ilha, chegaram acidentalmente. Conta-se que no início do século 20, um navio carregado desses animais, que se dirigia às Guianas, naufragou. Os sobreviventes alcançaram à costa e se aclimataram facilmente na região. No Marajó, adaptabilidade é atitude lapidar. Quando não sabe ao certo onde acaba a água, onde termina a terra, o caboclo vai de búfalo, forte e dócil. No seco, vai de cavalo marajoara e para ir mais longe vai de navio-gaiola, com o deck apinhado de redes coloridas. Seis meses por ano é pescador, e nos outros é vaqueiro e caçador. Não estivesse a ilha lastreada fortemente nessa vida concreta e dura, Marajó já estaria à deriva no mundo do sobrenatural, devido à fartura de tantos mitos, feitiços e divindades, como a Iara, mãe d água, o boto, Don Juan fluvial e a Boiúna, Cobra Grande.</p>
<p>Nessa paisagem mutante se desenvolveu uma civilização que criou as mais belas obras da arqueologia brasileira, a cerâmica marajoara. Mas os terrenos encharcados vão afogar a identidade do índio, desfazendo os adornos mais efêmeros, como as plumas, os tecidos, além da cestaria. Restaram apenas as igaçabas, grandes urnas depositárias das cinzas ou ossos do índio morto. Para elas os Marajoaras construíram monumentais aterros, os tesos. Quem viaja nessa paisagem cambiante entra na aventura permanente e volta vitalizado.</p>
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<p>Mundaréu único</p>
<p>O Amazonas, ao topar com a ilha, engole terras, avança floresta adentro, gera furos, igarapés, riachos, igapós e águas emendadas de rio e mar que constituem os maiores canais deltaicos do planeta. Nesse universo-ilha existem palavras exclusivas para os costumes, fenômenos e acidentes de natureza. A pororoca é uma destas. É quando as águas do Atlântico invertem a correnteza do rio e juntas, formam uma grande onda de até três metros de altura e velocidade superior a trinta km/h. Mas ela não é uma disritmia da natureza como as tsunanis. A pororoca tem lua e hora certa para arrebentar. Os terrenos embebidos também têm nomes próprios: os matupás são os barrancos flutuantes e o solo pantanoso é o mondongo ou tereterê que atola e quebra as canelas. Só no Marajó se sabe o que é bufelétrico: nos dias de carnaval o búfalo puxa carroças com caixas de som a todo volume. Resistente e topa-tudo também leva crianças para a escola e serve de montaria à Polícia Militar. Chupitar, é curtir devagarzinho um sorvete de cupuaçu, de taperebá, ou outra exótica fruta da ilha, e se acastelar é se hospedar nas imponentes, mas rústicas fazendas marajoaras. Neste chic rural, os turistas, na sua maioria estrangeiros, deixam a ilha com dose extra de ousadia, “nadei ao lado de botos, andei de búfalo, fugi do mundo”, como se vangloria a parisiense Dominique Gayman</p>
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<p>Bom Saber</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Soure</span>: a cidade é considerada a capital afetiva do Marajó. Seu nome deriva de Saurium, antiga ocupação romana em Portugal. Próximo do centro se localizam as praias do Pesqueiro, a preferida dos marajoaras, e a de Araruna, com sua beleza selvagem.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Cachoeira do Arari</span>: inspirado na observação que o brasileiro tem olhos na ponta dos dedos, o padre italiano Giovanni Gallo criou, em 1972, nesta cidade o Museu do Marajó. Interativo e lúdico, possui original catalogação. Com móbiles, rodas, engenhocas e painéis ilustrativos, tipo Windows, desenvolveu verdadeiros computadores caipiras.</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Carimbó</span>: as morenas marajoaras se vestem de sereia e ilustram uma história de sedução dançando o carimbó. Enfeitam-se: as saias com estampas coloridas lembram as escamas fluorescentes da Iara. As blusas brancas e rendadas sugerem a espuma e colares de contas são as bolhas d águas. Grupos folclóricos se apresentam nas praças e praias nos finais de semana</p>
<p><span style="text-decoration: underline;">Gastronomia</span>: Uma deliciosa empreitada é conhecer a cozinha marajoara. Nela o tucupi é o sumo branco-amarelado da mandioca que entra na maioria dos pratos. O happy-hour marajoara é o ritual de tomar o tacacá. Servido em cuias, é preparado com pimenta, camarão e jambu, verdura que provoca leve dormência na boca. Outra especialidade é o filé marajoara de carne de búfalo. Além de saborosa, contém 40% menos de colesterol e 55% menos de calorias do que as outras carnes vermelhas.</p>
<p>Cerâmica marajoara &#8211; Formas despojadas mais riqueza de grafismos resultam em forte expressividade<br />
Pesquisadores modernos estão compondo a história da civilização Marajoara e decifrando os mistérios que envolvem as relíquias dessa cultura, que durante mil anos, de 400 a 1400 a.D, se estabeleceu no numa vasta região da ilha. A arte Marajoara, por sua qualidade, deve ser considerada uma das mais admiráveis correntes estéticas da humanidade. Hoje, arqueólogos comprovam que esta cultura e sua manifestação artística são genuinamente brasileiras. Diferente de tecer os fios nos teares ou nos cestos, cujos traçados obedecem à rigidez do material, nas peças, riscando diretamente no barro úmido, a ceramista libera o desenho e tatuavam as igaçabas à semelhança do próprio corpo. Ao lado das urnas, foram encontrados: potes, tigelas, ídolos, alguidares, maracás e as tangas de barro. Únicas em todo mundo, eram modeladas de acordo com o corpo da índia. As igaçabas são representadas como uma grande coruja, animal da noite, símbolo da morte, que mostraria ao índio o caminho na longa travessia.</p>
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<p>Reportagem publicada na revista Latitude</p>
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		<title>Pecílio troca comida por carinho</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:18:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Ao finalizar sua carta ao rei de Portugal, datada de 8 de janeiro de 1606, sobre tudo que havia visto no interiorzão do Brasil, o bandeirante, boquiaberto, precisou confirmar &#8230;”e isso não é fábula”. Ao deixar José Pecílio Costa, 28, na Serra de Itabaiana, Sergipe, como num final de histórias de magias é difícil acordar [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao finalizar sua carta ao rei de Portugal, datada de 8 de janeiro de 1606, sobre tudo que havia visto no interiorzão do Brasil, o bandeirante, boquiaberto, precisou confirmar &#8230;”e isso não é fábula”.</p>
<p>Ao deixar José Pecílio Costa, 28, na Serra de Itabaiana, Sergipe, como num final de histórias de magias é difícil acordar do encantamento. Pecílio, menino franzino, tinha problemas para se expressar, gaguejava e não se interessava pelos estudos, só por passarinhos. Seu maior sonho era ter um falcão. Certo dia ganhou um ovo dessa ave e a pulso conseguiu convencer o irmão deixar que a galinha deste chocasse. Após 21 dias todos os pintinhos eclodiram, menos o tal ovo. Pecílio implorou para que ficasse por mais alguns dias sob a galinha e após uma semana, nascia na palma de sua mão, Tito, um falcão carcará. Nascia ali também uma grande amizade, parceria e união de almas.</p>
<p>Tudo o que Pecílio aprendeu, foi com Tito: que ovos de falcões eclodem com 28 dias, o que aves de rapina comem, que gafanhoto é ótimo para problemas digestivos, que a gordura do sapo é eficaz contra infecções, que a respiração boca a bico é necessária em casos extremos, que se forem adestradas ainda jovens não mais se acasalam, pois seu parceiro passa a ser o treinador, e todos segredos da Falcoaria. Esta arte treina aves para: apresentações de vôo livre, defesa pessoal ou de um lugar, caçar, ou simplesmente para companhia. A maior diferença é que em todas as falcoarias do mundo, sendo as mais famosas as orientais, as aves são condicionadas pela recompensa com alimento, enquanto Percílio troca comida por carinho e consegue em quinze dias o que outros treinadores só realizam em seis meses.</p>
<p>Somente há seis anos, quando Ricardo Alexandre da Silva, 29, biólogo amador, atraído pelas histórias dessas aves, vai ao seu encontro, é que Percilio ficou sabendo que o carcará Tito (Polyborus plancus) era uma fêmea. Juntos decidiram criar o Parque dos Falcões, com o objetivo de transformar o conceito de treinar aves de rapina como, falcões, gaviões, corujas, além de seriemas, socós-boi e urubus. O Ibama de tanto levar aves machucadas e debilitadas para Pecílio e Alexandre reabilitar e devolver ao habitat natural, tornou-se um parceiro do Parque. Mas muito mais parceiros são necessários, pois o trabalho é intenso e a despesa com alimentação, entre rações e cem quilos de carne por semana, é enorme. Não há recursos para manter ajudantes, “à vezes tomamos café da manhã às seis horas da tarde“, confessa Percílio.</p>
<p>O Parque receberá nos próximos meses a visita de biólogos para aprenderem a reprodução em cativeiro do gavião pernilongo (Geramospiza caerulescens), conseguida com sucesso por Alexandre e Pecílio. Mais uma vez foi Tito que mostrou que os gravetos são selecionados pelo macho, para que a fêmea escolha um para construir seu ninho.</p>
<p>O tal bandeirante, apesar de informar corretamente ao rei, deve ter imaginado que era muito melhor se o monarca pudesse ver de perto esse fantástico Brasil. Saber do Parque dos Falcões é bom, mas conhecer pessoalmente Pecílio, Alexandre, os falcões, Tito, Chorão, Xaraque, Dara, Pimpão, Coragem, Azuma, que foi astro de documentário japonês, a seriema Lambreta, o urubu Romualdo, o socó-boi Nicinho, as corujas Curcur e Lucinha é outra história. Outra inacreditável fábula brasileira.</p>
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<p>Matéria publicada no livro “Viva o Brasil”</p>
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		<title>Havana, a Sensualíssima</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:14:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Se Havana se parece com alguma cidade, esta cidade é Veneza. Embora visualmente opostas, são iguais em essência. Ambas estão fora do mundo e nos levam com elas. Sua atmosfera singular resulta das construções tantas vezes repintadas, cuja pátina se fez pela maresia e pelo tempo. Ambas conservam a mesma magia que toca desejos, mexe [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Se Havana se parece com alguma cidade, esta cidade é Veneza. Embora visualmente opostas, são iguais em essência. Ambas estão fora do mundo e nos levam com elas. Sua atmosfera singular resulta das construções tantas vezes repintadas, cuja pátina se fez pela maresia e pelo tempo. Ambas conservam a mesma magia que toca desejos, mexe com nossa emoção, só que em ritmos diferentes.</p>
<p>Impossível descrever Havana pela imagem e pela música sem plagiar o cineasta Win Wenders no filme Buena Vista Social Club, de 1998. A primeira cena mostra Ry Cooder, músico americano, entrando em Habana Vieja ao volante um side-car desconjuntado. Seu objetivo era reunir os músicos cubanos que até 1959 se apresentavam na sede do Clube Recreativo Buena Vista. Desse reencontro nasceu o filme que lê Havana como quem lê uma partitura.</p>
<p>Cooder vai percorrendo ruas esburacadas no pino do meio-dia. Vêem-se em ruínas os palacetes coloniais de condes e marquesas, cujas paredes nacaradas, construídas em pedra porosa e coral retirados do mar tanto fascinaram Garcia Lorca, Isadora Duncan e Igor Stravinsky. Vitrais coloridos atenuam a reverberação da impiedosa luz do Caribe, pátios internos com fontes e ruas estreitas sombreiam calçadas; foram artimanhas utilizadas pelos construtores de Havana para driblar o calor.</p>
<p>O som é o das ruas: buzinas dos carros estropiados, caindo aos pedaços, a algazarra das crianças a caminho da escola em uniformes encarnados e homens que jogam dominó nas mesas ao ar livre, num ritual diário e ruidoso. O mais barulhento era, e ainda é, o ônibus chamado “camelo”, porque tem a forma do próprio – “onde moça bonita recebe massagem erótica” –, ironiza a desinibida passageira Rosamar, enfaixada em um body de lycra pink, deliciosamente brega. A câmera cinematográfica também surpreende um bizarro ciclista com o rosto coberto de piercings. Famoso, hoje ele se exibe nas escadarias da Catedral com 250 adornos a mais.</p>
<p>Cuba mergulhada em música. Mas por causa da revolução, pela falta de grana e de meios técnicos para gravações, ficou fora da distribuição no mercado internacional. O que a manteve congelada também a conservou pura e singular. No filme, a frase do guitarrista Compay Segundo, 95 anos, emociona: “se tivéssemos seguido o desejo material, teríamos desaparecido”.</p>
<p>Fernando Ortiz, intelectual cubano, afirma que para compreender seu povo é preciso passar pela música e dá a receita: negro + tabaco + tambor, branco +açúcar + violão, ou seja, uma corrente espanhola e camponesa que se casa com ritmos afros e deuses da Santeria, equivalente do nosso Candomblé. É possível acrescentar também o espírito alegre do deus Dionísio – aqui, sem vinho mas com rum – e sua natureza inclinada à tragédia, à comédia, provocador da inspiração musical. Tal mistura está plasmada no Callejón de Hammel. Todas as fachadas desse quarteirão foram pintadas como um extravagante mural, com símbolos afros, hispânicos, indígenas e orientais, resultando em um rincón ao mesmo tempo lúdico e macabro. Aos sábados e domingos ali se reúnem músicos e dançarinas cujas roupas de cores vivas se mimetizam ao local. Todo o conjunto parece entrar em transe e despacha nossa inibição.</p>
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<p>Rico vacilón</p>
<p>Os sete quilômetros do Malecón, calçadão a beira-mar, são a tribuna dos habaneros – os moradores de Havana. De um lado, o mar azul-lázuli, do outro, casarões de cores tão diversas quanto seus estilos. Este calçadão é o lugar ideal para preguiçar, far niente, ou como se diz por aqui, rico vacilón. Ponto de encontro de namorados, de pescadores, passantes e turistas é também o local dos madrugadores e dos os boêmios chumbados. Quando é o mar que fica de ressaca, invade a avenida ensopando quem está num táxi-coco cor de manga madura – uma lambreta adaptada para dois passageiros. O Malecón é o cenário perfeito para fotos de noivas envoltas em vestidos de tule, cauda de cachoeira e babados mil ao vento, e de jovens produzidíssimas comemorando seus quinze anos.</p>
<p>O centro histórico, Habana Vieja, declarado Patrimônio da Humanidade em 1982 pela UNESCO, retrata a riqueza da época colonial espanhola. Fortalezas, templos, monumentos, fontes, praças e igrejas, como a Catedral que o jornalista cubano Manoel Pereira definiu como música petrificada. Na calle Obispo está localizado o Hotel Ambos Mundos onde viveu o escritor Ernest Hemingway. Ele a percorria diariamente a caminho da Plazuela de Albear, em direção ao bar El Floridita, para saborear uma das especialidades da casa, o daiquiri, só que para ele era com double run. Os cubanos batizaram com o nome do escritor de “O velho e o mar” a elegante marina onde chegam veleiros de todas as partes do mundo. Outro escritor cultuado é Eça de Queirós, que freqüentava o Café Columnata Egipciana quando cônsul de Portugal em Cuba.</p>
<p>A Havana imortalizada nos filmes de Hollywood com sua gente rica e extravagante como no filme Week-End in Havana com Carmem Miranda e César Romero; a Havana com seus cassinos, intrigas e suspenses sob o comando da Máfia em Guys and Dolls, com Marlon Brando, e em Topaz, dirigido por Alfred Hitchcock, não existe mais. Baixa-se a cortina, corta-se a cena. Esta cidade é doida, é maravilhosa. Não se consegue absorvê-la. O roteiro por Habana Vieja se completa num inventário da riqueza e da complexidade desse país de matiz socialista. A começar por duas de suas maiores construções: o Capitolio, cópia fiel do original americano, e o Hotel Nacional, projetado pelo mesmo arquiteto do The Breakers em Palm Beach. Atrevidamente independentes os cubanos expressam sua esperança.”Chegou ao fim nossa contagem regressiva”, arrisca Juan Y., 34 anos engenheiro e taxista.</p>
<p>De fato, uma viagem pelo interior desse país nos mostra que estamos diante de uma nova realidade. Cidades como Varadero, Trinidad e Holguin se apresentam com seu sol em glória, as praias lotadas de turistas estrangeiros, com sua arquitetura colonial, resorts e hotéis cinco-estrelas, táxis Mercedes e lojas de grife.</p>
<p>Todo o patrimônio arquitetônico dessa ilha levou séculos para ir se acrioulando até se tornar cubano. Foi justamente a revolução que deteve a onda de demolições dos casarios, para em seu lugar erguerem-se arranha-céus sediando bancos e grandes multinacionais. Hoje as cidades estão em obras. Restauradas, voltarão a exibir seu original esplendor.</p>
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<p>Mestre-Cuba</p>
<p>A reforma também chegou à cozinha, que precisa apenas de polimento, pois tem todos os ingredientes para saborar e sofisticar qualquer prato. O point máximo para gourmands e cinéfilos é o palacete onde foi rodado Fresa y Chocolate, de Gutiérrez Alea. O apartamento do personagem Diego, apaixonado pela cultura cubana, é hoje um restaurante. As iguarias são papa-fina, mas perdoe-nos a heresia, a comida é quase dispensável. Aqui o que nos alimenta é o cenário: a escadaria, o piso em mármore, a pátina cor de açafrão das paredes, as colunas, as esculturas. Nem mesmo os cômodos subdivididos e o painel revolucionário destoam. Dá até para ouvir o fundo musical de Vitier.</p>
<p>Talvez sejam a música e o cinema os instrumentos certos para decantar uma sociedade, só que em Cuba esta receita exige uma dose de rum.</p>
<p>Como todas as criações originais, o rum gera histórias e lendas. Acredita-se que seu nome derive de rheu, que no dialeto sevilhano quer dizer talos, com bouillón – caldo em francês – chegando-se a rumbillión e depois simplesmente rum. No princípio era uma bebida forte para gente rude, que ajudava a engabelar a saudade de casa. Foi definida pelos piratas como “o tônico sumo da terra”.<br />
Em 1862 surge a lenda de Facundo Bacardi, recém-chegado da Catalunha para civilizar o rum. Ele traz novas técnicas de destilação que acrescenta buquês e uma dourada cor ambarina à bebida. Dá início à distribuição internacional e usa o morcego como emblema da casa. Com a revolução a destilaria é nacionalizada, e o rum cubano passa a se chamar Havana Club. Na capital do país, a fábrica de rum Bocoy produz o “Legendário” e o especial Isla del Tesoro, envelhecido 25 anos. As palavras de um personagem de “Ilhas da Corrente” de Hemingway definem o espírito dessa alquimia: “eu não fumo nem como doces, mas tudo o que se destila nesse país me dá prazer”.</p>
<p>Prazer de ver e de sentir é o que nos apresenta Orlando Blanco Blanco, o maitre de 36 anos do Floridita que em fevereiro de 2002 venceu o IV Concurso Internacional para Sommeliers e do qual participaram connaisseurs de todas partes do mundo; um dos juízes era brasileiro. O objetivo do concurso é o melhor casamento entre um charuto e uma bebida. Com elegância sóbria Blanco explica sua mistura campeã: um Robaina com um Porto de 20 anos, da Real Companhia Velha. O Robaina é um charuto menos encorpado, chamado “puro de nova geração”; o vinho tem nível alcoólico médio e conserva seus tons frutais.</p>
<p>Naturalmente requintado Blanco nos oferece uma aula para os sentidos: o ritual de acender um “puro”. Primeiro exibe a carta de charutos, sugerindo marcas e bitolas dependendo do tempo que se dispõe, pois um charuto pode ser degustado até por uma hora e meia. Retira do refinado mostruário o escolhido e corta sua extremidade num gesto delicado. Acende-o com uma vareta de cedro, o que permite queimá-lo devagar enquanto vai espiralando o charuto no ar, liberando o forte e puro aroma do tabaco. Tudo isso sem levá-lo à boca, já que o charuto é do cliente.</p>
<p>Ao sair do Floridita notamos que o aroma de fumo incensa Havana. Sua atmosfera, assim como a de Veneza, se avalia com o coração. Se a cidade italiana é conhecida como a Sereníssima, a Noiva do Adriático, Havana é a Sensualíssima, a Amante do Caribe.<br />
Ecoando numa viela a voz de um cantor expressa este sentimento com perfeição: “a Cuba voy, porque non vienes tu también a volar, &#8230;.pero si non vás te mando una postal”.</p>
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<p>Hipertexto: Vale de Viñales, o vale dos charutos de Cuba</p>
<p>Conta-se que os primeiros que aspiraram o fumo da planta do tabaco foram os Maias da península de Yucatan, no México. Com o colapso de sua civilização, as tribos se espalharam pelas Américas levando o costume de fumar essa erva considerada sagrada. Quando Colombo desembarcou na ilha de Cuba, foi atraído pelo ritual dos índios que enrolavam em forma de tubo as folhas da planta denominada cohiba. Também costumavam inalar por meio de dois canudos finos e longos, inseridos nas narinas, aos quais chamavam tabaco. A palavra maia para fumo, sikar, foi locucionada para sigarro pelos espanhóis, e assim começou a história do Il puro, o modo carinhoso com que são chamados todos os charutos cubanos.</p>
<p>No Vale do Viñales, a 150 quilômetros a oeste de Havana, as plantações de tabaco se estendem ao pé dos mogotes, pequenas montanhas de pedra calcária que, sob um sol escaldante criam um perfeito terroir para as folhas dos melhores charutos do mundo. Nas Casas de Fermentação as folhas verdes se pigmentam, enquanto transpiram, evoluindo desde tons ocres e ferruginosos e terras douradas e grenás até o castanho mais escuro. Ali, à meia-luz, essas folhas acetinadas doam seu aroma que atiça os genes mesmo daqueles que não fumam. Relembro o músico Compay Segundo. “Desde os cinco anos tenho um charuto nos lábios. Nesta idade eu os acendia para minha avó”.</p>
<p>As melhores folhas são enviadas para as fábricas, a maioria em Havana, onde trabalhadores, os chamados torcedores, as enrolam manualmente para transformá-las em charutos. Nestas instalações o progresso foi deixado para trás. O quê se vê hoje num destes salões é igual ao que se via no início de século 19, nenhuma tecnologia. Cada torcedor tem à sua disposição somente uma pequena bancada, uma lâmina e cola vegetal. Tudo totalmente a mano. Cuba produz cerca de 140 milhões de charutos por ano, acondicionados em caixas de cedro e exportadas para mais de 120 paises.</p>
<p>Talvez o mais famoso charuto seja o Cohiba, criado originalmente para Fidel Castro presentear seus hóspedes especiais. Ele já foi definido como “a reserva da reserva da reserva”. Para os aficionados, sem dúvida, ele é formidável, mas os connaisseurs revelam outras marcas como o II Upmann Connaisseur ou o Hoyo de Monterrey Epicure N. 2 que são top de linhas. Enfim, todos “Hecho em Cuba”.</p>
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<p>Reportagem publicada na revista Metrópole</p>
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		<title>Encanto e terror nas selvagens savanas da África</title>
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		<pubDate>Fri, 02 Dec 2011 13:04:08 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Uma viagem pelas savanas africanas conserva ainda hoje o fascínio irresistível de uma aventura. É uma descoberta contínua, não somente pelos animais ferozes, como também por sua vegetação típica. Tudo perpetuado por um sol vangoghiano. A cada passo, a estranheza da aventura corresponde a um processo de iniciação: o encontro com o inesperado, os desafios, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma viagem pelas savanas africanas conserva ainda hoje o fascínio irresistível de uma aventura. É uma descoberta contínua, não somente pelos animais ferozes, como também por sua vegetação típica. Tudo perpetuado por um sol vangoghiano. A cada passo, a estranheza da aventura corresponde a um processo de iniciação: o encontro com o inesperado, os desafios, o improviso e a descoberta de que o medo não surge em doses homeopáticas, mas é despertado de forma abrupta, nos arrancam de nosso cotidiano e nos arrastam para muito longe de nós mesmos.</p>
<p>Nas duas últimas décadas, surgiu uma nova experiência desta África sem paredes, indomável, inexplorada, propiciando uma intimidade aconchegante, natural e pessoal: os acampamentos nas savanas alagadas do delta do Okavango. A África destes viajantes não é a mesma dos turistas de uma África domesticada e sob a redoma de resorts e safáris com animais de hora marcada.</p>
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<p>O rio que decidiu salvar um deserto</p>
<p>O rio Okavango nasce no planalto central de Angola com o nome de Cubango. Ao encontrar-se com a paisagem “deserdada” do Kalahari na Botswana, dá uma colher de chá para este deserto: desiste de sua saída para o mar e desemboca nas areias, transformando-se em canais, riachos, lagos, pântanos, olhos d’água, terras aguacentas. Com aproximadamente 16000km2, é o delta interior mais extenso do mundo. Suas águas pouco profundas criam um oásis que é prodígio da natureza por sua exuberante vegetação verde-esmeralda. Nestas zonas alagadiças, os lírios d’água, as flores de lótus, as ninfas e a luz do delta são fontes inesgotáveis de inspiração para fotógrafos e viajantes.</p>
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<p>Os Tented Camp</p>
<p>Esses acampamentos nasceram nos países da África do Sul e do Leste (Namíbia, Botswana, Zimbábue, Zâmbia, Malawi, Tanzânia e Quênia) com um estilo próprio e encantador. Consistem de, no máximo, quatro ou seis barracas (walk-in tented) permanentemente armadas sobre uma base de cimento, com banheiro privativo e paliçada de fazer inveja à imaginação do melhor decorador tropical. Tendo como teto o céu aberto, a luz nesses banheiros modifica-se de acordo com as horas do dia. Além disso, chuva e sol, pássaros e babuínos fazem parte desta cambiante decoração.</p>
<p>Nenhuma barraca invade a privacidade da outra. Todas são grandes, têm duas camas, armário, mesa e varandas voltadas para uma vista privilegiada. Tudo muito limpo. As refeições são servidas em um atraente quiosque, onde os hóspedes ainda podem desfrutar de uma pequena biblioteca com obras sobre a fauna e flora locais. É onde descobrimos que este “habitat” abençoado pelo Okavango, de água e bichos, dá a impressão de que a Arca de Noé ancorou por aqui. Podem ser vistos todos os grandes animais carnívoros, grupos de elefantes, de hipopótamos, de javalis, de crocodilos, de búfalos – com aquela cara de quem acabou de roubar a sua carteira e permanece na moita –, cervos com galhadas do mais puro design e aproximadamente 350 espécies de pássaros, entre os quais o jaçanã, a águia pescadora, o pássaro tecelão de peito amarelo-ouro e os hornbills. Este pássaro se caracteriza pela grande envergadura, podendo atingir até 80 cm de altura – alguns têm uma saliência óssea de grandes proporções na cabeça – e pelo seu cacarejar surdo e rouco, cujo volume aumenta gradativamente partir do seu inicio. No delta só não se vê rinocerontes.</p>
<p>Café ou chá, biscoitos ou frutas estão sempre à nossa disposição durante todo o dia.</p>
<p>Os quiosques também são ponto de encontro para as saídas dos safáris. O primeiro deles tem início ao amanhecer e retorno para o “brunch”; o outro sai no final do dia e nos reserva uma surpresa: um brinde num lugar especial de onde se pode apreciar “à hora do sol-posto”, como diziam os americanos vestidos de roupa cáqui e com ares de Jim das Selvas.</p>
<p>Esses acampamentos oferecem três tipos de safáris: o “game drives”, com veículos 4&#215;4 para, no máximo seis pessoas; o “mokoro safaris”, em que se utiliza uma canoa típica feita de tronco de ébano e os “walking safaris&#8221;, excursões a pé. Caminhar é uma introdução às sutis contemplações que as viagens de carro não possibilitam.</p>
<p>Diversos acampamentos se espalham pelo Delta do Okavango, cada um com seu charme particular, com fauna e flora características. Alguns se localizam em ilhas, outros nas savanas, outros ainda nas florestas fechadas dos pântanos ou ao lado de rios ou mesmo dentro deles, em barracas-barcos. O acesso a todos só é possível por meio de aviões pequenos, do tipo Cessna 206 ou Cessna Caravan. A viagem ideal para Okavango exige uma permanência de dois ou três dias em, ao menos, três desses acampamentos, para que se possa “curtir” suas particularidades.</p>
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<p>Em Duba Plains</p>
<p>Pela Air Botswana, partimos de Johannesburg na África do Sul em direção da capital de Botswana –Gabarone –, primeira escala para o destino final, Maun, porta de entrada do Delta.</p>
<p>Na Botswana, as mulheres se vestem com as coloridas kangas. Este nome deriva de uma palavra do idioma kiswahili, que quer dizer galinha-de-angola. Segundo a história oral, os homens assim batizaram esta roupa, porque havia uma semelhança entre o seu colorido pipocado e o vozerio de suas mulheres, que quando juntas pareciam estar “cacarejando”, como as galinhas-de-angola. Mas, onde eu estava? Tagarelando?</p>
<p>De Maun, um avião Cessna de seis lugares nos conduziu ao primeiro acampamento em Duba Plains. Um pinga-pinga, pois desceu antes em outros acampamentos.</p>
<p>Do avião se nota que o rio Okavango remalha as terras com sutis desenhos em filigranas. A natureza parece ter a textura de um tecido rústico de algodão. Na verdade, um axadrezado de quadradinhos em que se alternam ocre-areia e verde-cré, para lembrar agora outro pintor holandês – Mondrian.</p>
<p>Assim que o avião desceu numa pista quase oculta pelas árvores, um grande Land Rover se materializou, parecendo saído daqueles antigos filmes de contrabandistas. Pulverizava poeira por entre o “bush”, uma vegetação quase rasteira, típica dos climas tropicais.</p>
<p>Do jipe saltou Jez Lynce, um jovem inglês e guia desses acampamentos há mais de cinco anos. Dele, os recém-chegados ouvem as primeiras explicações sobre o local e sobre as atividades.</p>
<p>Duba Plains talvez seja o mais remoto Tented Camp do Delta. Situa-se numa ilha e está cercado por uma ampla planície alagada. É ideal para passeios em “mokoro” e suas barracas são sombreadas por ébanos, figueiras e acácias. Seu quiosque principal compõe-se de um bar e uma varanda com um deck ao lado de árvores fluviais. Esta área primitiva é também o habitat de leões, leopardos, elefantes, búfalos, cervos e pássaros. Duba é um acampamento pequeno e aconchegante, com acomodação para apenas dez pessoas e oferece todos os tipos de safáris.</p>
<p>Houve tempo apenas para um rápido café acompanhado por “cookies” recém-saídos do forno, e já estávamos a postos no jipe para o safári da tarde, sob sol forte. Jez anunciou: “Agora vamos procurar leões e, à noite, vamos ver se encontramos leopardos”. Durante as quatro horas seguintes aprendemos a reconhecer as pegadas dos leões, dos elefantes; por suas fezes, pode-se definir o tempo aproximado de sua passagem pelo local. Este safári reserva uma surpresa deliciosamente romântica: um brinde com champanhe ao pôr-do-sol.</p>
<p>À noite, cuja temperatura lembrava mais o frio islandês, o programa foi “procurar leopardos” que podiam ser vistos com suas caças nas árvores. Há também leões, que circulavam nas proximidades do acampamento. Mas não é preciso temê-los, embora ali seja território dos animais. Basta seguir as regras.</p>
<p>“Nós construímos este campo em seu quintal”, o guia costumava afirmar.</p>
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<p>Selvafricamente</p>
<p>O jantar, servido com esmero, foi saboroso e regado por bons vinhos sul-africanos. Seguiu-se a ele um bate-papo ao pé do fogo, onde o assunto predominante dizia respeito à ferocidade, agilidade e estratégia de caça dos animais carnívoros. Uma senhora americana relatou como havia escapado do ataque de um urso no Yellowstone Park. Era guia e recebeu uma patada que praticamente destruiu parte de seu rosto, obrigando-a a uma plástica. &#8220;Só escapei porque me fingi de morta&#8221;. Outro guia contou como um jovem japonês perdeu a vida depois de ser atacado por leões no Etosha Park, na Namíbia, havia menos de um ano, quando, imprudentemente se escondeu no parque para acampar.</p>
<p>Mais assustadoras do que isso só as histórias do Abominável Homem das Neves ouvidas numa taverna no Himalaia. Enfim, quando o fogo começou a morrer, e o vento a brincar com as cinzas, resolvemos voltar para nossa barraca. Embora ela estivesse distante apenas setenta metros, naquela escuridão e solidão eles representaram quase dois quilômetros. Caminhávamos tensos e temerosos, empunhando a lanterna em todas as direções e delegamos a nossa responsabilidade à sorte.</p>
<p>Na barraca, resolvemos fechar apenas a tela de proteção contra insetos. Viver integralmente a primeira noite na África, escutar os possíveis sons do silêncio, ser acordado pelo grito de alma penada do Yellow billed hornbill era tudo o que queríamos. Mas aquela noite nos reservava uma bela surpresa.</p>
<p>Fomos subitamente despertados por um rugido, suficiente para despertar um defunto que, acredito, somente um galês da cidade de Llanfairpowllgwyngyllgogerychwydrobwlllantysiliogogogoch na Gales do Norte pode reproduzir.</p>
<p>Nesses momentos é que um homem bem compreende a origem tenebrosa do medo. Numa fração de segundo e num salto de quase meio metro, já estávamos acordados, bem despertos e fechando rapidamente o que era possível fechar em nossa barraca. Sem dúvida, aquele rugido era de um leão! Mas um dia na África não nos tinha tornado &#8220;experts” para saber a que distância ele estava. Um quilômetro? Dez metros? Assustadíssimos, mas tentando manter a calma começamos a prestar uma atenção odiosa aos barulhos. Agora eram passos ao lado da barraca, que logo resultaram no som de um pulo dentro do nosso banheiro. Seguiu-se depois o ruído de garras raspando a lona, mas quase abafado pelo som de 200 integrantes da bateria da Mangueira em que haviam se transformado as batidas de nossos corações.</p>
<p>Trocávamos palavras percebidas somente pelo movimento labial, tanto era o batuque em nosso interior. Enorme!</p>
<p>Enorme mesmo foi o susto ao ver um rabo passando por dentro da barraca. Embora sem saber absolutamente o que fazer, vencemos a paralisia e, do alto de nossa cama, munidos do que restava de nossa coragem, de um canivete suíço e de uma lanterna tentávamos saber que bicho era.</p>
<p>Era um felino, sem dúvida! Mas não um leão. Maior que um gatão, menor que um leopardo. Ele olhou para nós, rangeu os dentes e, &#8230;no “impasse” da mágica para nosso terror, acomodou-se na outra cama.</p>
<p>Não conseguimos descobrir que animal era e temíamos imaginar qual sua ferocidade, porque, embora menor que um leopardo, poderia criar o caos naquela tenda. Passamos a noite nos revezando para vigiar o “monstro”. Ao amanhecer, muito tempo antes de sermos acordados para o safári, saímos os três juntos: ele para a direita, nós para a esquerda.</p>
<p>- Levantaram cedo! comentou nosso guia ao se deparar conosco.</p>
<p>- Na verdade, ainda nem dormimos.</p>
<p>Depois de contarmos nosso episódio noturno e descrevermos nosso &#8220;hóspede&#8221;, Jez conseguiu desvendar o mistério.</p>
<p>- Foi um civet, uma espécie de grande gato selvagem africano. Ele se assustou com o rugido do leão e procurou abrigo.</p>
<p>- E se fosse um leão, o que faríamos?</p>
<p>- Enjoy Yourself, Jez desejou em seu característico humor britânico.</p>
<p>Nossa viagem havia apenas começado. No segundo acampamento, o Kwara Camp, nossa barraca &#8212; a famosa número 4 &#8212; ficava exatamente no caminho dos elefantes para uma pequena lagoa. Acordávamos sempre sobressaltados quando algum deles resolvia se coçar nas cordas da armação.</p>
<p>Diante de tais acontecimentos, nossa fama começou a nos preceder.</p>
<p>- Ah! Vocês são os brasileiros que tiveram a companhia de um civet na barraca? Aquele havia sido um acontecimento inusitado mesmos nos acampamentos onde ocorria todo o tipo de estórias.</p>
<p>Em Xiguera Camp veio a nossa vingança. Como ninguém nos despertou para o safári matinal pensamos que haviam nos esquecido. Mas logo veio a resposta. A barraca do guia estava sendo bem guardada por treze leões adormecidos.</p>
<p>E tivemos de esperar durante três horas, quando, enfim, os leões foram embora e o guia “libertado”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Reportagem publicada no jornal Valor Econômico</p>
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		<title>Fifth Amazonia International Tourism Event. (FITA)</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 19:02:28 +0000</pubDate>
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			<content:encoded><![CDATA[<p>Belem, which is considered to be the Entrance Way into the Amazon  region, is to host the most important Amazon Tourism event from the 12th  to 15th August. In addition to presenting new tourist attractions, the  Fair will give especial high profile to the delights of Para State  cuisine. The purpose of this Fair is to demonstrate the rich variety of  local Amazon fruits and spices, and the event will be honoured with the  participation of the renowned Italian Chef Fabrizio Innocenti from the  Grand Hotel di Firenzi, who will be working with the best of the local  regional Chefs.</p>
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<p><img class="aligncenter size-full wp-image-208" title="news2010081202" src="http://www.reali.fot.br/wp-content/uploads/2011/05/news2010081202.jpg" alt="" width="480" height="360" /></p>
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		<title>A Square in São Cristovão is made a World Heritage Site.</title>
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		<pubDate>Thu, 26 May 2011 12:32:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[The São Francisco Square in the tiny town of São Cristovão, 24 km from Aracaju, in Sergipe State, was last week awarded World Heritage status by UNESCO. This unique site is the only Square in Brazil to have been designed and created in the urban Spanish style. It was constructed during the period of the &#8220;Iberian Union&#8221; (1558 [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>The São Francisco Square in the tiny town of São Cristovão, 24 km from  Aracaju, in Sergipe State, was last week awarded World Heritage  status by UNESCO. This unique site is the only Square in Brazil to have  been designed and created in the urban Spanish style. It was constructed  during the period of the &#8220;Iberian Union&#8221; (1558 &#8211; 1640), when Spain and  Portugal were united. With this most recent nomination, Brazil now  boasts 18 UNESCO World Heritage Sites.</p>
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<p><a href="http://www.reali.fot.br/wp-content/uploads/2011/05/news2010081201.jpg"><img class="aligncenter size-full wp-image-204" title="news2010081201" src="http://www.reali.fot.br/wp-content/uploads/2011/05/news2010081201.jpg" alt="" width="480" height="320" /></a></p>
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